segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

Fase de Terminalidade



O cara foi internado no ano passado. Câncer. Nem sei onde. É tanta gente tendo câncer em tanto lugar que prefiro não guardar. É amigo de uma amiga. A mesma amiga que me contou que a última notícia do médico para a família, depois de precisar interná-lo outra vez, é que o paciente entrou em Fase de Terminalidade.

Enquanto o elevador descia e eu olhava para ela pensando "Isso quer dizer que"... Eu nem precisei perguntar por que. Logo ela soltou um "Ou seja...". Antes mesmo de a porta do elevador fechar.

Câncer aparece. Desaparece. Volta. Ou não. Mas a situação me colocou para pensar na tal Fase de Terminalidade e o quanto é importante reconhecermos quando ela chega para saber que o que ou quem está ali, daqui a pouco não vai estar mais.

Na Medicina, a fase é quando o médico avalia que não há mais cura, não adianta mais remediar. Tratamento nenhuma vai livrar do fim. É o anúncio de que, como toda fase, esta também passa, mas depois dela, a única opção é término.

Na vida, não se tratando de saúde, a Fase de Terminalidade pode ser prevista, mas é difícil diagnosticar sem a ajuda de um bom entendedor para nos dar a notícia.

Saber o que vem logo ali pode desesperar, mas, principalmente, confortar. O amigo da minha amiga agora sabe pelo o que continuar por este período, o que dizer e com o que não se importar.

Do médico para um diretor de empresa, o chefe pode saber que o funcionário que logo será demitido, que entrou em Fase de Terminalidade para aquela corporação. Não rende mais. Vão reduzir os custos. Vamos contratar outro pela metade do salário ou simplesmente o rumo da companhia mudou e aquele colaborador não se encaixa mais.

Difícil anunciar A Fase para a vítima neste caso, pois só Deus sabe qual pode ser a reação daquele empregado. Diferente do médico, o diretor guarda o diagnóstico para si até que, por orientação da empresa, ele possa anunciar a morte imediata daquele contratado.

Seria melhor saber? Se preparar? Alguém dizer ou nós mesmos interpretarmos os resultados deste tipo de exame?

Nos relacionamentos, a Fase de Terminalidade muitas vezes não precisa de consultoria. Está ali, na tela, às vistas, no sentimento, na respiração que, bem aos poucos, muda.

Mais fácil que acessar resultados de exames pela internet é saber o quanto aquela vida a dois te mantém saudável ou te condena com o passar do tempo.

Mas se médico é quem é preparado para dar notícia ruim, quem nos treinou para anunciar a Terminalidade de um relacionamento?

O melhor é quando se chega ao resultado a dois. Um diagnóstico quase impossível de ser feito porque há sempre algo escondido que, como uma metástase, pode se espalhar e ser incurável com o passar dos dias.

Porém, dizem que a fé cura tudo. Quem é o tal doutor para decidir suspender o tratamento? E se ainda houvesse jeito? Uma outra alternativa? Uma dose de amor que não daria para ser prescrita?

Naquele casamento de brigas constantes, que já criou resistência aos antibióticos, qual é o momento de procurar a cura em outra pessoa? Ou descobrir a terapia de curar a si mesmo sem pedir receita ou se entregar para paliativos alheios.

Será que insistir mais um pouco no mesmo remédio uma hora pode ter efeito diferente? Afinal, a gente muda o tempo todo.

Prefiro eu mesmo anunciar para o meu coração o início da Fase de Terminalidade para então saber que não adianta continuar com os tratamentos. O que há para ser tentado foi feito antes. Os remédios não deram resultado. Muitas vezes, alguns pacientes simplesmente não reagem.

É aí que a Terminalidade chega e conforta. Vem e cumpre o seu principal papel: terminar. Ela é a certeza que ninguém precisa acreditar. Apenas entender que, assim como ela cumpre o seu papel de diagnosticar, cabe a gente a consciência para recomeçar.


6 comentários:

Ana Carolina Alberti disse...

Um término pode significar um recomeço como vc pontuou. Ás vezes algo morre e renasce dentro de um relacionamento, dentro de um trabalho, se acostumar com o fim dos ciclos é aceitar a natureza das coisas e saber o que deve morrer e o que deve renascer. Se a gente não sabe a gente sente.

Anônimo disse...

Perfeito. Terminar é puramente concluir aquilo que está pronto, o que não há mais razão de ser. Agora o terreno está fértil outra vez para um novo plantio. É assim em todos os papeis que assumimos na vida.

Matheus Farizatto disse...

Oi, Anônimo! (Quem será este leitor, gente... Me ajudem aí!). Obrigado pelo comentário. Manter a fertilidade depois de colhermos o que é preciso é definitivamente o mais importante para mantermos o frescor da vida e experimentarmos novos frutos.

Matheus Farizatto disse...

Maravilhosa demais, Aninha! Obrigado por ler e participar. Adorei: "saber o que deve morrer e o que deve renascer. Se a gente não sabe a gente sente". <3

Maria Lopes disse...

Muito bom !
"... muitos pacientes não reagem..." É uma definição perfeita para enxergar que chegou o fim, a Terminalidade.
Parabéns pelo texto.

Matheus Farizatto disse...

Muito obrigado, Maria! Fique sempre à vontade com o Caneca. Beijão.