segunda-feira, 30 de outubro de 2017

Sedentário, eu?



Meu horário de entrada no trabalho é sete e meia da manhã. Imaginar que alguém faz exercício antes disso está muito longe da minha capacidade criativa. A pessoa que cuida da saúde malhando às seis da madrugada depois de acordar às cinco e ainda me conta está, automaticamente, destruindo (agora me imagina gritando as próximas palavras) a minha (passou o meu grito) saúde.

Se eu chego à empresa e o elevador está desativado, eu vou para o segundo elevador do prédio e última chance de fugir dos dois andares, ou melhor, dos quatro lances de escadas – assim parece mais sacrifício. Geralmente o segundo nunca está desativado ou, se está em manutenção, não fica parado mais que dois minutos, afinal, é o meio de transporte que leva (aqui eu grito de novo) o dono (parei) da companhia para a sala dele. Então, é melhor estar funcionando. Sempre.

Mas se até elevador de patrão enguiça, fazer o quê. Eu, que mais que completar frase dos outros, já dou a minha resposta antes mesmo de a pessoa contar que eu termine a pergunta dela, jamais aguentaria esperar esses dois minutos. Vou de escada mesmo. Porque, além de eu não ter que esperar, não tenho que dizer “Bom dia” e ficar fingindo que sempre que estou no elevador olho para as paredes, teto e chão, para não ficar encarando as outras três pessoas que sobem comigo.

Se estou subindo as escadas e meu celular toca, já boto no silencioso e continuo a subida. Passado um lance de escada, se vejo que ainda está chamando, enfio no bolso. Se na penúltima sequência de degraus ainda estiverem insistindo em ouvir a minha voz, é capaz de eu desligá-lo porque aqui estão duas coisas que eu não consigo: fingir que não estou vendo a minha mãe ligar e atender e andar ao mesmo tempo. Imagina subir escada! Tenho uma parada.

Se estou andando em uma calçada sem desníveis e me celular toca, já começo a ofegar antes mesmo de atender. Atendo. Tomo ar. E “alô”. Daí para frente, sigo com perguntas curtas que me dão tempo de respirar enquanto a pessoa responde.

Se for a minha irmã quem ligou, melhor ainda. Eu solto um “Sei...”. E ela fala mais quatro minutos. Eu: “Jura?”. Lá se vão mais nove minutos de argumentação dela, o que me oferece a chance de dar passos rápidos enquanto inspiro pelo nariz e expiro pela boca. Tudo com o celular na minha orelha, porém com o microfone virado para o céu para não ouvirem minha respiração ofegante. Se me fazem uma pergunta enquanto, isso, tipo “você acredita que ela disse isso?”. Eu tomo fôlego e digo muito rapidamente: “não”.

É a falta de exercício. Mas eu não pago para fazer academia. Acho bobagem. E também não faço exercícios que não precisam pagar. Acho bobagem.

Pagar academia para mim é o mesmo que pagar para uma pessoa socar a sua cara enquanto outra dá joelhadas na sua barrida e outras quatro se dedicam à chutar as suas pernas e braços. Quem paga por isso, gente? “Ah, eu me sinto muito melhor depois”. Depois de qual parte?

Quando tentei fazer academia, me dediquei por quatro meses sem fugir à regra. Para não falarem que não tentei. Nesse tempo não teve uma vez que não pensei que fosse desmaiar, apagar, e – não “ou” porque a sensação era de tudo ao mesmo tempo - me borrar ali mesmo.

A coisa começa pelo horário. “Ok, vou direto do trabalho, assim eu embalo”. E aí come o que antes de se exercitar? “Um iogurte”, sugeria o mala do personal que vive daquilo. Gente, se eu tomo um iogurte e começo a correr naquela esteira, vai coalhada até na aula de spinning no andar de cima.

Daí, se eu como bastante, me dá aquela moleza. Se eu passo em casa antes só para trocar de roupa, meu sofá me dá muito mais tesão que o professor careca musculoso de canela fina e meias pretas quase nos joelhos.

Prefiro gastar com meus livros, cinema e cerveja e comida com minha família e amigos. Afinal de contas, em uma das vezes que senti a respiração curta demais enquanto eu caminhava e falava ao celular, pensei: “De hoje eu não passo. Vou morrer, mas vou morrer no ambulatório da firma”.

Corri para a enfermaria. Chegando lá o médico me perguntou “O que é que está pegando aí, cara?”, apontando para o meu peito – primeiro que, qual médico te chama de cara? Segundo que, como assim pegando? – Respondi, “Nada”. Ele insistiu que tinha algum chefe me enchendo ou prazo me tirando o sono. “Não. Nada mesmo”. Ele me receitou um calmante natural porque jurava que o meu problema era ansiedade. Ansioso, eu? Mal sabe ele.





   

2 comentários:

Lucimara Souza disse...

Hahaha você ainda tentou entrar numa academia. Eu nem isso.
Comprei uma mini cama elástica e um simulador de caminhadas. Animei. Durou até o dia em que comi dois pedaços de bolo de cenoura e fui me exercitar.
Quase morri depois de ter expelido quase que todos os meus órgãos do aparelho digestivo.
Academia aqui nesta cidade é disputa de quem tem a bunda maior. Eu não preciso disso. Sou muito bem resolvida com a minha... rs.
Adorei! Beijos! ❤

Matheus Farizatto disse...

Luuu!
Você já é toda malhada no bom senso, no intelecto e neste sorrisão maravilhoso! Beijos