quarta-feira, 30 de agosto de 2017

Um todinho de Rita Lee

Por que não conheci a Rita, antes? Talvez porque seu melhor momento seja o agora. Não falo da Rita conhecida por cantar a música do vampiro e a do perfume. Gosto de conhecer a Rita Lee de aqui. Ali, velhinha. Aposentada. Aquietada depois de uma vida de carinho e de porrada.

Falo da Rita que escreveu sua biografia e me surpreendeu não só pelas experiência e verdade maravilhosas, mas pela liberdade de quem erra e acerta lindamente - e escreve igualmente. Típico de quem sempre aprende.

Diz ela que escreveu a biografia assim, ao estilo senhorinha, devagar, nos intervalos entre brincar com seu pet e cuidar de seu jardim, digitando aos poucos em seu... Tablet. Conseguem imaginar? Me ganha.

Seu lançamento da vez é o livro “Dropz”, uma coletânea de contos que deve reunir mais toques em sua "tela de escrever" com análises sobre ela e criações de uma cabeça que só a dela. 

Ainda não o li. Mas mesmo que eu não leia de capa a capa, já me desmanchei com a leitura deste texto que compõe a publicação.

Feche os ouvidos. Pense na Rita jovem rebelde e na Rita idosinha de franjinha, grisalhinha, enquanto você lê cada uma dessas linhas.



Eis–me

Eis‑me aqui viva, mera mortal, filosofando sobre a vida, sobre Deus, sobre a crise mundial. Vem‑me à cabeça minha herança e lembro de mim criança, depois adolescente e assim como todos, carente. Muito antes que depois fui mutante, mulher e amante. Eis‑me aqui perdida no futuro do presente, neste mundinho esquisitão, sobrevivente da bobalização. Meio insatisfeita sou a sujeita do verbo ser star, estrela perdida no índigo do céu, pés no chão, cabeça na lua, coração ao leo. Homens não sabem como dizer adeus, mulheres não sabem quando. Posso resistir a tudo, menos à tentação, e descobri que sou quem eu estava esperando. Eis‑me aqui dia seguinte profissa, espreguiça, lava a cara, escova dente e cabelo, dá uma piscada pro espelho e parte pra rotina de dar bons‑dias. Trabalho como se não precisasse do dinheiro, danço como se ninguém estivesse me olhando e perdoo meus inimigos, nada os deixa mais putos. É uma pena que estupidez não cause dor. Eis‑me aqui caidaça no meio da naite, birinaite, cachaça, me levo pra casa depois de muito blá‑blá‑blá, chego e ainda como um resto de pizza com guaraná. Dou um suspiro, respiro, me inspiro e piro na maionese de mim mesma, esta lesma lerda que não sabe por que caiu, nem onde escorregou. Eis‑me aqui confusa, uma estúpida com raros momentos de lucidez, minha consciência limpa é sinal de memória fraca, um boato que entra pelo ouvido e sai por muitas bocas, depois eu é que sou louca. Tusso na frente de um fumante para ele se sentir culpado, depois queimo meu baseado na calada da noite, lá fora o frio é um açoite, então fecho os olhos, não se preocupe comigo, eu apenas estou morrendo. Ei‑me aqui odiando o amor, me abrace por favor, chego à conclusão de que talvez esteja errada, na esperança nada permanece, só a mudança. Estranhos são amigos esperando eu os encontrar, hay mucho que hacer, calo a boca e sorrio, seria engraçado se não tivesse acontecido comigo. Eis‑me aqui na mesmice, nunca vou perdoar as palavras que não disse, não tenho preconceito, neste mundo odeio tudo igualmente e quando não consigo convencer eu confundo, melhor te amar, se tenho medo da solidão melhor não me casar. Eis‑me aqui bem‑amada, Houston, we have a problem, minha namorada é homem, sou o oposto da puta porque estou pouco me fodendo, não estou podendo tanto assim, ai de mim que não sei se acendo uma vela ou se xingo a escuridão, ando tão sem tempo de tanto assistir televisão. Eis‑me aqui falada, mal‑bem‑amada, o vestido mais bonito uso para ser despido, a vida é tão tranquila que devia emitir atestado de óbito, é óbvio que uma das coisas que me dão mais prazer é fazer o que não devo, vou comer e aproveitar até a última mastigada. Eis‑me aqui me despedindo de mim depois de vomitar a alma, felicidade é a minha direção não meu destino, me peça para ter calma, antes de rezar vou me perdoar, antes de desistir vou tentar, antes de falar vou escutar. Eis‑me aqui renascendo, sendo mais eu do que jamais fui, de que me adianta falar bem se estou errada no que digo, não me ofereça sua sabedoria, me dê apenas um copo d’água, uma fatia de pão e um pouco de circo. Só não posso viver com quem não consegue conviver comigo, nessas eu tive foi sorte. E se você não salvou minha vida, pelo menos não arruíne minha morte.







Eu tentando trabalhar em uma boa foto para o blog com o livro "Rita Lee - Uma autobiografia", enquanto meu namorado tumultua a minha serenidade.

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