segunda-feira, 5 de junho de 2017

Os enterros de nós mesmos

Ilustração Waldez Cartuns



























A quantos enterros você já foi até hoje? Familiares, vizinhos, parentes de amigos, seu cachorro, talvez, ou ao enterro do próprio amigo. E de quantos enterros seus você já participou?

A participação que digo é aquela em que você deita no caixão. Não falo sobre enterros "seus" como se você fosse o agente funerário ou o organizador da despedida. Quantas versões de si mesmo você já jogou para baixo da terra?

Em tempos quando todos se preocupam como está a sua foto no presente, mal sobra tempo para pensar no futuro, imagina se ver no passado.

Durante um dos encontros na casa da minha mãe, abrimos os armários da sala para revisitar eles, os vintages mais atuais: os albinhos de fotos. Tudo em papel. Com cada duas fotos colocadas em uma folha de plástico com medidas dez por quinze em uma capa de paisagem genérica.

Ali estávamos nós. Um a um, várias e várias versões de nós que nem lembrávamos. Aquele corte de cabelo, certa roupa, os carros que há tempos se foram, amigos sem contato atualmente, um tipo físico, um jeito de ser que se foi e ninguém deu falta. Sem percebermos, jogamos cimento em cima daqueles "nós mesmos" e seguimos a vida.

Uma amiga comentou que sempre foi desapegada. Há pouco tempo terminou um relacionamento de dez anos. Com certeza a desapegada é a que enterrou a apegada demais que levou seu namoro por uma década.

A antiga ela teve um enterro digno. Tudo bem organizado. Os melhores amigos ali perto dando todo o apoio. Sua mãe preferiu não comparecer por achar que não suportaria tal situação e, como em todo velório que segue a tradição, alguns desconhecidos olhando curiosos de rabo de olho. Ela enterrou a sua eu anterior em uma noite de sábado ao som libertador de Cher e Lady Gaga. Em uma boate gay. Aquela do longo relacionamento morreu. Uma menos apegada reencarnou.

Em sua deliciosa autobiografia, Rita Lee comenta que não é a mesma. A doidona que experimentou uma vida que eu defino como "cheia de liberdade" chega à velhice falando sobre seus atuais prazeres: seus animais, cozinhar e cuidar de seu jardim ao lado do marido. Em entrevista ao Pedro Bial para comentar o lançamento de sua vida em livro, Rita se comporta como a senhorinha que é hoje. Faz caras e bocas com jeitinho de uma charmosa idosa fazendo os charmes que só as senhoras fazem. E o conforto dela com este momento é saboroso como se ela assumisse serenamente ter enterrado com amor todas as versões da roqueira pirada que ela mesma lacrou nos caixões. 

Normal mudarmos. Temos que mudar. Se não buscarmos novos nascimentos de nós mesmos, para quê vivenciar, conhecer, se permitir, se testar. Para que termos mais tempo? O exercício nos faz melhorar. Mas ninguém se sai bem na prova se não estudar o conteúdo. 

Enquanto nos dedicamos desesperadamente ao resultado, esquecemos de fazer a revisão. Afinal, se não fossem todos os nossos túmulos, não conseguiríamos a força para cavar a cova seguinte e jogar nela a próxima versão boba de nós que está por vir.     


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