terça-feira, 4 de abril de 2017

A gente acaba com a gente



A gente esquece de agradecer. Pede, pede, pede e nada de dizer algo de volta. A gente pede quando está mal e esquece quando está bem.

Quando a gente agradece é automático. Se deita na cama e agradece pela saúde, pelo amor, pela paz, pelo alimento, pelo lar, pela família e pelos amigos. Vira roteiro. Ninguém agradece pelo cara que buzinou alto no trânsito enquanto a gente invadia a outra faixa por dar aquela olhadinha nas mensagens no celular. Ele, que pode ter salvado a vida da gente, passa a ser o chato mal-humorado que estragou o nosso dia antes mesmo de a gente chegar ao trabalho.

A gente esquece de ouvir. Basta alguém comentar algo sobre o seu dia que, assim que o outro parar para tomar um fôlego, a gente desembesta a falar do nosso. A gente pergunta do outro para falar o que queremos. Comece a prestar atenção. É sempre a gente, a gente, a gente. Peça a opinião de alguém sobre algo que diz respeito a você e tão logo você ouvirá todas as histórias de vida do outro sobre as coisas dele mesmo.  A gente fala o que quer e não ouve o que não quer. Acaba com uma amizade por pura vaidade.

A gente esquece de entender. Busca, busca e não se sabe o quê. O desejo do outro passa a ser a nossa meta. A viagem, a roupa, o cargo, a série de TV, o relacionamento, filhos ou não. E nessa de um se espelhar naquele ao lado e então o outro no outro, a vida se tonar um enorme ciclo de personalidades padrão desfiladas em uma esteira da qual ninguém ousa pular fora. A gente faz sem saber para quê. Acorda sem ter um porquê.

Em tempos em que todos podem ser algo diferente dos demais, afinal, nunca antes houve tanta liberdade e opções, a gente vive de postar.

Posta, posta, posta. Você viu? Eu também. Comprou? Eu também. Se você for, eu também vou. A gente definitivamente não sabe lidar com escolhas. E nunca antes houve tantas delas a serem encaradas.

A gente gosta sem saber de quê. Gasta sem sentir o porquê. Beija sem conhecer aquele “que”.

A gente desaprende a sonhar. Afinal, não se sonha o sonho do outro. Não há nada mais pessoal que os nossos próprios desejos. Não há nada mais autêntico que negar um convite que não é do seu agrado.

A gente acaba com a gente sem saber que quando morrermos algumas pessoas vão se importar, mas que em pouco tempo isso também vai passar.



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