sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Independência: quem paga a conta?

Saber ser ajudado hoje é um exercício para mim. Insistir em ajudar alguém além do simples nível de educação, idem


Eu não saberia dizer se hoje as pessoas não sabem receber um agrado ou se só esperam ser agradadas o tempo todo. Se elogiamos o outro e oferecemos um mimo surpresa, somos vistos como carentes desesperados por atenção, soando como se fizéssemos isso para todo mundo – apesar de que há quem faça.

Para outros, se deixamos de gargalhar jogando a cabeça para trás em uma piada mais ou menos, a pessoa chega a chorar no banheiro e volta nos chamando de arrogantes. A questão é que acho que não sei receber alguns agrados e por vezes não sei como ser surpreendentemente insistente em dar atenção ao outro. E penso que isso tem tudo a ver com a minha educação.

Sou da época que voltávamos da escola a pé, em grupo de amigos de sala, batendo papo, dando risada e fazendo farra na rua. Farra saudável. No máximo escolher um para tirar sarro durante a caminhada, apertar campainha e sair correndo. Acontece que quando eu estava na terceira série, havia uma salgaderia no caminho de volta para casa.

A graça era parar no lugar, bater à janelinha de entrega de salgado e, quando a mulher de avental e touca abrisse, perguntarmos “Moça, tem salgado de sobra?”. Ela, dia após dia, gentilmente dizia que iria ver, fechava a pequena passagem e então voltava com duas possíveis respostas: “Hoje não” ou “Aqui estão”.

Sempre que tinha, era uma festa maior ainda da metade do caminho para frente. Dividíamos entre a gente e ainda almoçávamos ao chegar em casa – porque tínhamos muita fome e porque receberíamos muito castigo se não almoçássemos.

Certo dia corri na frente dos meus amigos porque queria conseguir um salgado para mim e outro para a minha avó, quem cuidava de mim enquanto os meus pais trabalhavam. Cheguei à salgaderia. Toc-toc na janelinha. “Moça, tem salgado de sobra?”. “Aqui estão”. Dois pastéis de carne.

Nem mordi o meu. Corri ainda mais com a mochila nas costas e um pastel com guardanapo em cada mão. Passei pelo portão de casa, então a sala, lá estava a vó, sentada à ponta da mesa com o almoço nas panelas sobre o fogão.

“Vó, olha o que eu trouxe pra gente!”. Ela: “Matheus, onde você arrumou isso?”. Já me deu aquela dormência por conhecer esse tom da velha. “Eu peguei na salgaderia, vó”. “Com que dinheiro, Matheus?”, suador tomando conta de mim neste momento. “Eu pedi e tinha sobra, vó”.

O que veio a seguir se compara a palestras caríssimas que as pessoas pagam para participar e ouvirem sobre como elas não podem cometer erros em um mercado competitivo.  “Vo-cê-nun-ca-mais vai pedir salgado lá. Se estiver com vontade, a gente tem que comprar, não sair pedindo para os outros”. Esse foi o tema ministrado pela senhora Zélia Ferreira, minha falecida avó.

Hoje a quem diga que não tem como um casamento dar certo se cada um não tiver o seu próprio veículo. Minha mãe me carregava a pé para baixo e para cima. Andávamos de trólebus – é a primeira vez que escrevo essa palavra, gente. Depois vieram os ônibus. E muito antes de se irem os cobradores, minha mãe e eu esperávamos até o começo da noite para sairmos da casa da minha vó e irmos para a nossa enquanto meu pai trabalhava como garçom e usava o nosso carro – minha mãe não dirigia e isso também não era problema em um casamento à época.

O motivo de irmos de ônibus era não dar trabalho para a minha tia que morava com a minha avó e chegaria tarde, cansada do trabalho no plantão do hospital. Íamos a pé até a rodoviária e então mais um tanto de ônibus porque morávamos no Conjunto Habitacional, a feliz Cohab que possibilitou muitas primeiras casas para muitos matrimônios recém firmados.

Se virar sozinho, não depender das pessoas, são presentes que recebi em cada Natal e aniversário dessas duas mulheres da minha vida. Saber ser ajudado hoje é um exercício para mim. Insistir em ajudar alguém além do simples nível de educação, idem.

No primeiro ano depois que comprei meu apartamento (e tudo que há dentro dele, exceto fogão e geladeira que ganhei), cheguei a jantar a bolacha que recebi de lanche da tarde na empresa porque me endividei até esgotar o próprio limite do cheque-especial no banco. Mas fiz sozinho. Passou.

Há alguns meses conheci um cara super bacana. Gerente em um hotel. Bonito, educado, todo alongado na altura, morou fora do país. Bom partido. Me levou a um lugar todo diferente e charmosos para o almoço de sábado. Pagou a conta. Já estranhei mas achei um charme. Fomos com o carro dele e, no caminho para me deixar em casa, parou em uma farmácia, pediu para eu descer com ele, me comprou um xarope e uma cartela de pastilhas para a garganta por causa da tosse que ele notou em mim. Pagou a conta de novo.

Pagar o restaurante, o bar, eu posso até me acostumar. Da farmácia já é muito para esta minha encarnação. Adorei o gesto, mas seria algo difícil para eu agir naturalmente. Sou eu quem paga o motel da transa sem compromisso. Sempre.

Se der para combinar o esquema um por um, melhor. Enquanto isso eu aprendo a fazer canja para quando precisar cuidar de alguém e aprendo a não encomendar a sopa em um restaurante para receber o mimo de alguém quando for o caso.



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4 comentários:

Anônimo disse...

Não foi fácil aqui também. A educação foi vivenciada junto às dificuldades. Rolou uma fase de andar buscando acolhimento segurando a mão da mãe que carregava uma sacola. Tudo que a gente tinha. Não tinha opção. Nada foi ganhado também, sempre foi uma troca porque ficar devendo favor era inaceitável. Cresci. Por muito tempo eu me recusava a aceitar certos tipos de ajuda ou até cortesia de balada. Preferi sempre pagar a pedir. Hoje, acho que tem espaço para isso, mas até a página dois também. Dividir é a melhor opção, a menos que seja aquela gentileza feita pra te conquistar mesmo. O lance é que a gente se endureceu tanto com nossas feridas que não queremos cutucar as cascas. É mais confortável ficar protegido por elas. Mas óh, deixa umas brechas. Porque a gente não precisa ser forte todo o tempo e às vezes por essa brecha entre algum sentimento que te ajude a ser a melhor versão de você mesmo! To praticando também! F.B.

Matheus Farizatto disse...


Hey, F.B.! Que legal conhecer um pouco da sua experiência nessas situações. Obrigado por dividir. Definitivamente "É mais confortável ficar protegido por elas", mas que graça teria não sairmos do lugar? Dicas anotadas. Que as brechas sempre existam para talvez elas abrirem novas janelas na gente.

Obrigado demais pelo comentário. Adorei.

Lucimara Souza disse...

Muito bom seu texto, de novo!
Eu me identifiquei... rs
Adorei o tom cheio de sentimento e saudade da época da escola, ou melhor, do caminho de volta da escola.
Beijo!

Matheus Farizatto disse...


Nossa, Lu, como é gostoso escrever sobre épocas passadas que fazem de nós quem somos. Mais ainda quando foram tão gostosas.

Enquanto eu escrevi este texto, vieram tantos sentimentos e quase que até os cheiros dessa fase... Das coisas boas que a escrita tanto nos oferece, né?

Obrigado pelo comentário e pela olhadinha de sempre aqui no Caneca, Lu. Beijão.