sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

Nem um segundo, todo segundo



















Pela jornalista e tradutora, 
Viviane Martines Riitano
Uma das coisas que mais me surpreendem nesta vida é saber que o mundo não para. Óbvio? Sim, para nós que estamos bem, esperando o relógio marcar o horário de saída do trabalho, a sexta-feira, o feriado, o 13º... É realmente excelente que o mundo não pare.

Mas, para quem é engolido pelo olho do furacão de uma tragédia é quase que inaceitável que o mundo não pare. Recentemente minha mãe esteve à beira da morte. Do dia para a noite, da mesma forma que milhões de pessoas saudáveis caem doentes, se acidentam, têm suas vidas tiradas pela violência ou são vítimas do imponderável da vida, minha família que, sempre esteve lá do mesmo jeito, sem grandes alterações, foi atingida.

No dia seguinte, minha vida estava aos pedaços. Nada do que eu conhecia como rotina, vida ou normalidade existia. Porém, tudo a minha volta continuava lá. As pessoas continuavam indo ao shopping, trabalhando, discutindo, namorando e eu me perguntava: “Como assim? O mundo não acabou? A vida não parou?”. Não.

Aquela dor imensa, aquele medo paralisante iam comigo conforme eu executava as coisas mais rotineiras do dia. E o sol insistia em nascer naqueles mais de 40 dias de UTI. As primeiras doze horas críticas, segundo os médicos, também incluíam levar as crianças ao colégio, abastecer o carro, a hora do almoço chegava, a noite caía, o jantar, as contas embaixo da porta, antipatias antigas, amizades, tudo, absolutamente tudo continuava lá. Para falar a verdade, em determinados momentos a gente até tem uma pontinha de raiva do mundo... Será que ninguém vê? Será que ninguém sente? Temos vontade de gritar e espernear, mas o trabalho nos espera, as crianças dependem de nós e continuamos rodando, rodando, rodando com o mundo mesmo sem querer.

Quando tive notícia do acidente com o avião da Chapecoense, pensei: hoje o mundo de 77 famílias parou. E não há nada que possamos dizer ou imaginar que possa chegar aos pés do que essas famílias estão sentindo e sentirão até que seus mundos voltem a girar.

O que nos resta é fazermos velhas perguntas em relação aos nossos valores, às lutas que escolhemos e à maneira como nos tratamos... E de novo dar uma voltinha pelo óbvio.

É óbvio que devemos dar valor a quem amamos, é óbvio que cada minuto que vivemos nos aproxima mais da morte e que estamos nos debatendo para consumir cada vez mais “coisas” enquanto nossos filhos, pais, mães, irmãos e amigos se sentem tão perdidos quanto nós, tão sozinhos quanto nós. É óbvio?

Bem, a viagem que nos levou os meninos da Chapecoense coroava o momento de maior sucesso da vida do clube e dos seus jogadores. Ninguém ali estava exatamente “por baixo na vida”. Portanto, a única reflexão que nos resta é a de que nossa condição de mortais é a mais poderosa de todas e a mais democrática. Ela não respeita sucesso nem fracasso, não vê raça nem gênero e é a única que em sua essência nos lembra do quanto somos iguais e frágeis.

Não podemos nem por um segundo pensar que o jogo está ganho, que as coisas vão ficar como estão, pois a realidade é que nossos míseros minutos neste planeta são efêmeros e tudo pode mudar e invariavelmente VAI MUDAR.
Minha mãe ainda está em fase de recuperação. A gratidão por isso é imensa e as mudanças também. Nem um dos meus segundos depois do dia que ela adoeceu foi igual, nada foi igual, eu não sou igual. Não podemos deixar que as tragédias da vida sejam apenas tragédias, elas devem valer como lições, daquelas tristes, doloridas, porém válidas, pois se assim não for nos resta apenas o sofrimento.

Nem por um segundo fomos capazes de estimar o que aconteceria com aquele avião mesmo sabendo que sim, obviamente, poderia acontecer; exatamente por isso, nem um segundo deve ser desperdiçado, pois a beleza da vida também reside em saber que todo segundo tem a potencialidade de ser incrivelmente feliz.



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*** Deliciosa colaboração da amiga talentosa, quem se dedica toda semana a me fazer aprender espanhol – enquanto eu pareço um retardado tentando falar o idioma: a Vivi. Muito obrigado pelo texto, minha lindíssima. Você manda bem demais em tudo o que você faz. Que a gente sempre se borre de rir. O Caneca também é seu!
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8 comentários:

Anônimo disse...

Arrasou Vivi!!! Tudo nos leva a crer que somos todos iguais e independente de posição social, raça ou seja lá às diferenças que tivermos, a vida nos leva sempre ao mesmo destino final.
Só nos resta até lá, saber aproveitar os segundos como se fossem únicos, e são ❣

Textos sempre maravilhosos dessa mulher que admiro muito!
Sucesso sempre Vivo!!!

Marina Cusinato disse...

Esqueci de me identificar. Hahahaha
Matheus, depois que a Vivi nos apresentou o blog, entro p me distrair sempre.
Vc arrasa, é muito bom!
Sucesso a ti tb!!!

Eduardo Verdú disse...

Vivi, você é PHODA! Simples assim.

Alessandra Coimbra disse...

Essas situações que nos ocorrem nos fazem refletir o quanto somos frágeis e a morte, a inexorável morte, que chega um dia assim, sem avisar.
Vamos aproveitar a vida enquanto há, pois o instante seguinte não sabemos como será.
Adorei, Vivi!
Sucesso!!!
Beijos

Flávia Cordeiro disse...

Que orgulho Vivi!!!!Vc é uma pessoa muito especial, inteligente e talentosa. Sucesso sempre!!!
Beijoss

Rodrigo Prata disse...

Parabéns pelo texto! Tudo a ver com o realidade que vivemos! Sucesso.

Matheus Farizatto disse...


Bom demais, pessoal. MUITO OBRIGADO pelos comentários. Merecidos para a nossa amiga, Viviane. O texto é um charme, super sensível e pé no chão.

Marina, fique sempre à vontade demais para voltar aqui no Caneca e curtir, distrair, comentar!

:) <3

Lucimara Souza disse...

Lindo!
Sempre me ponho a refletir sobre isso. Eu não tenho medo de partir daqui, mas todos os dias me pergunto: será que é hoje o dia mais feliz da minha vida?
Isso me faz aproveitar mais o meu tempo. De uns tempos pra cá deixei uns medos de lado também. Isso me ajuda a viver mais feliz.
Parabéns pelo texto, Viviane!
Bjs, Matheus!