terça-feira, 5 de julho de 2016

Dia 5 é dia de guardar a despesa



Dia 5 do mês é dia de fazer despesa. Ou o que der para comprar com o salário que cai na conta. E guardar as compras do supermercado é sempre um evento, né? Lá em casa sempre foi. Todo mundo ajudava a descer as sacolas do carro. Tudo era colocado ao lado da pia e então meu pai passava mais de uma hora de joelhos no chão, em uma posição constrangedora, com a cara enfiada embaixo na pia, o chinelo de dedo prestes a arrebentar sendo testado com mais força que pelo inmetro, com a bermuda no meio da bunda. Rego à luz. Ele separa tudo por "espécie" no chão ao tirar as coisas das sacolinhas – lata com lata, pacotes, pacote leve com leve, pesado para entrar primeiro e ficar sob os outros – e só depois deste lindo processo seletivo, começa a organizá-las na despensa.

Quanto tempo você leva para guardar a despesa? Eu demoro uns 40 minutos. Mas a minha compra de todo dia 5 é para um. Solteiro. Mas a despensa é cultura de família: embaixo da pia. Que orgulho! Em quarenta minutinhos guardo as compras: Cup Noodles e papel higiênico. 

Sou rápido até, né? É que as outras coisas da vida de solteiro entram neste tempo também. A começar pela escolha da playlist perfeita para tocar na TV enquanto vou guardar tudo. Isso depende do meu humor e como ele demora para se estabilizar, vai-se um tempinho. 

Depois tem o celular. Sou neurótico do tipo que só carrega o celular depois que TO DA A BA TE RI A A CA BA e ele desliga sozinho. Isso pede atenção, gente. Coloco para carregar e só tiro da tomada quando a marca de 100% surge no visor. 99% não serve. São quase seis anos de vida juntos já com esse meu iPhone que não vai virar outro Apple mais atual na minha vida - não posso viver sem Cup Noodles (nem papel higiênico porque não gosto da água gelada da ducha me pegando de surpresa).

Aí tem o Whatsapp. Simultaneamente: mãe, irmã, grupo da mãe com a irmã, grupo das tias com as primas, grupo só das primas, grupo do departamento da empresa, os paqueras (esses jamais em grupo) e o grupo que avisa aonde estão os radares móveis - que se movimentam muito e pedem muita atualização, claro. Enquanto isso, a despesa do dia 5 sobre a pia. 

Lembrei do congelado que comprei! Lasanha! Uma só. Presunto ao sugo. Afinal acabou a parcela do empréstimo e aí a gente tem que comemorar com uma comprinha a mais no mercado, né? Corro, guardo o congelado e lembro que não tirei o lixo de manhã. Se eu não fizer agora, vou esquecer. Larga a despesa de solteiro na pia. Tira o lixo da cozinha, depois o do banheiro. Deixa na porta do apê - do lado de dentro, tá? - Levo já já. Deixa eu voltar e acabar de guardar a despesa.

Cup Noodles no armário embaixo da pia. Papel higiênico... No banheiro. Nossa, poderia ter aproveitado a ida para tirar o lixo de lá e já ter guardado o papel no armarinho. Perdi a viagem. Penso. Penso muito. Moro sozinho, né? Então só penso. Das seis da tarde às seis da manhã não falo uma palavra. Só penso. E canto. Mas palavra cantada não vale. E teclo. Mas palavra em celular às vezes só é lida no outro dia. Nem dá para criar essa expectativa. Nunca se sabe como está o evento do dia 5 do mês em prol da armazenagem da despesa de quem está do lado de lá. Respeito.

Mês que vem vou trocar a lasanha congelada pelo vidro de pimenta biquinho que paquerei hoje na prateleira de produtos de Festa Junina. Isso é quase uma violação à Lei dos Lares dos Solteiros, afinal, esse tipo de mimo só deve ser encontrado em casas de mães, tias e avós. Mas isso é para daqui a um mês só. E ninguém precisa saber.



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