segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

"Até que a morte nos separe ainda mais"


Boa crônica do Gregorio Duvivier, ator, escritor e um dos criadores do Porta dos Fundos. Escreve para a Folha de S. Paulo às segundas-feiras. 

Cata essa inversão.




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Até que a morte nos separe ainda mais

Gregorio Duvivier
Folha de S. Paulo (4 de janeiro de 2016)


A família toda está reunida em volta da mesa de jantar, à espera do grande anúncio. Jaime e Ligia estão namorando há muitos anos e não se casam nunca. Jaime, de terno e gravata, bate com o garfo na taça de vinho.

- Vocês devem estar se perguntando por que é que Ligia e eu reunimos vocês aqui. Alguns já sabem da boa notícia, é verdade. Vocês conhecem a Ligia, ela acabou contando pras amigas. Finalmente, depois de sete anos de namoro, de cumplicidade, de alegrias, eu resolvi, finalmente, pedir a Ligia em separação.

Todos comemoram.

- Finalmente! Acabou a enrolação!

Jaime retoma, solene.

- Ligia Maria Carneiro, eu queria aproveitar que estão todos presentes para, oficialmente, me livrar da sua mão em casamento e saber se você aceita ser, para toda a eternidade, minha ex-mulher.

Alice, bêbada, tenta puxar um coro.

- A-cei-ta! A-cei-ta!

E Ligia, emocionada.

- Jaime Roberto Mendonça, é com muito prazer que eu aceito ser sua ex-mulher. Pra ser sincera, eu esperava por esse momento há uns três anos. Já tinha aberto conta no Tinder, Happn, Instamessage, mas tava oculta em todas. A gente já tava na merda, só faltava mesmo a oficialização. Prometo ser a melhor ex-melhor do mundo. Prometo não te stalkear, prometo não pegar seus amigos, prometo não chegar na sua casa de surpresa e nem contar seus podres por aí.

Ela faz gesto de pau pequeno. Todos riem. E Jaime, choroso:

- Ligia, esse tempo de namoro foi muito bom para eu ter certeza de que você não era a pessoa certa. A certeza foi crescendo e deu nisso, esse divórcio lindo que tá só começando. Essa separação que, se depender de mim, a gente vai levar pra vida toda. Prometo que vou fazer o possível e o impossível pra estar sempre longe, na saúde e na doença, na alegria e na tristeza, até que a morte nos mantenha ainda mais separado.

Mariana, a madrinha, se levanta. Separa as sílabas para dar ênfase.

- Enquanto madrinha dessa separação, eu queria dizer que eu já sabia disso faz um tem-pa-ço. Tenho certeza de que esse vai ser um divórcio fo-da. De todos os casais separados que eu conheço, vocês são os que mais nasceram pra ficar separados mesmo, pra vida to-da. Enquanto madrinha dessa separação, prometo evitar que a Ligia mande mensagens para o Jaime quando estiver bêbada e evitar qual-quer recaída. Quando bater a saudade do Jaime, prometo levar sorvete. E prometo apresentar os boys mais ma-gi-a.

E Alice, aos prantos:

- Quando vai ser a festa?



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