terça-feira, 10 de novembro de 2015

Coisas que nos chacoalham

















Saudade de almoçar fora uma vez na semana. Não queria comprar seu apartamento, Matheus? Agora come ele! Ainda bem que a empresa oferece almoço. Mas a quebra de rotina é sempre refrescante. Também não posso reclamar. Daquela uma vez por semana, ainda consigo fazer uma vez por mês. A última foi em outubro. Do Outubro Rosa, sabe? Pois é.

Shopping, depois de almoçar... Sobremesa! Parada na Cacau Show para escolher uma (que se tornou algumas) trufa. Bem escolho pensando só no sabor que espero sentir com aquela de “Recheio de iogurte de morango”, pensando somente em mim, no meu almoço mensal dos prazeres, quando a atendente em vez de me dizer o preço da guloseima me lasca um “A trufa que você escolheu é em comemoração ao Outubro Rosa e o dinheiro vai para o tratamento do câncer. Poderia deixar um recado para as pessoas com câncer?”. E empurra um bloquinho de papel pink e uma caneta.

Mu-rro-na-mi-nha-ca-ra! Como, moça? Do nada, assim? E meu almoço dos prazeres? Câncer? Na minha sobremesa? Olho para a turma que me acompanhou na saidinha para espairecer e solto um “Vai pedir isso bem para mim, gente?”.

Enquanto a atendente solidária com a causa do Outubro Rosa embala o meu pedido, eu encaro o bloquinho com a caneta na mão. Pressionado pelo, “Vai, Má, você é bom para escrever essas coisas...” das minhas amigas, começo a pensar no que escrever, o que dizer para uma pessoa em tratamento contra o câncer, como não soar cafona, clichê ou insensível com a situação? Pensei em dizer que tudo ficaria bem para aquele que lesse o meu recado, mas e se não ficasse? Deixar de dar o recado? Sem chance. Eu queria aquela trufa e com ela veio o chacoalhão de que a vida não é só feita de chocolate.

“A paz é um estado de espírito que podemos ter não importa o quê.”. Ponto. Esse foi o meu recado. Foi o que veio. E é o que tenho pedido para mim. Foi o que desejei a quem lesse. Não assinei o bilhete de tão desnorteado por ter sido pego de surpresa, mas, da mesma forma que a paz, para o que eu desejava não era preciso ter nome, cara ou motivo e, sim, paz. Eu agradeço pela minha saúde, mas peço por paz. Com dinheiro ou não, é preciso ter paz. Família ou não, comida ou não, frio ou não, amor ou não. Peça paz.

Hoje não trabalhei. Fui para a empresa, mas não consegui ficar e certamente não aguentaria até o fim do dia por conta de uma gripe que começou a dar sinais um dia antes. Foi outro chacoalhão. De tempos em tempos precisamos da atendente em prol do Outubro Rosa, da gripe, de possíveis outras doenças, da morte, de duas barragens desmoronando e inundando cidades para nos lembrar o quão besta é o nosso dia a dia nessa vida.

Será que valeria um aplicativo para nos cutucar sobre isso? Lembro do app que uma amiga minha já teve: o do programa “Medida Certa”. Aquele do quadro do Fantástico, sabe? Claro que sabe. A cada x minutos vinham as vozes do Zeca Camargo e da Renata Ceribelli com recados como “Que tal um fruta?” e “Psiu, psiu... Não vai comer nada não?” – esse segundo me irritava profundamente.

Imagine, de hora em hora, ou ao menos uma vez ao dia, ser lembrado que você poderá ter câncer, que amanhã poderá precisar de uma bolsa de sangue, de um órgão, que você pode estar bem mas muitos outros por aí não estão e ignorar isso é a pior das cegueiras? Valeria o lembrete?

Sou uma pessoa que vivo para mim. O último a ser voluntário em ações organizadas pela empresa. Passo longe de grupos que visitam hospitais e asilos nos finais de semana. Sou um tanto descrente por ver tanta gente ser solidária para dizer que é, para aumentar os álbuns de fotos do Instagram e do Facebook. Mas meu recadinho no bloquinho pink foi de coração. E com esses e outros chacoalhões que virão, com certeza enxergarei melhor as oportunidades de, no dia a dia, com as pessoas que passam por mim, observar e oferecer um gesto, mesmo que do tamanho de um post-it, para tentar ajudá-la. E ajudar a mim, claro.

   

2 comentários:

Lucimara Souza disse...

Hahaha Adorei! Devido à correria, há tempos não passava por aqui. Senti saudades!
Correria, correria... Pra quê, né?! rs

Bem, enfim... Gostei demais de seu texto, Matheus!
Você fez sua parte e bem feita! Super sensível seu recado. Beijo!

PS.: voltarei às postagens em breve.

Matheus Farizatto disse...


Nossa, Lu! E eu senti MUITA saudade de você por aqui. Obrigado pela passada.

Saudade também de um post seu. Volte, sim. Eu vou adorar.

Um beijão.