segunda-feira, 22 de junho de 2015

As várias cruzes e os credos

 
Enquanto isso, Viviany rala para ter seus direitos básicos em uma sociedade que 
se arrasta por um Neymar que está fugindo da Receita 
por crédito indevido recebido pelo Barcelona



Fiquei meio assim, sei lá, incomodado, quando vi as fotos da modelo e atriz transexual, Viviany Beleboni,crucificada na Parada Gay deste ano. Me perguntaram o que achei da cena e pediram para eu ser sincero – porque sabem que eu sou gay e compreensível quanto às formas de ser expressar. Respondi que “foi meio desnecessário e um tanto sem respeito”.

Porém, quando li sobre a intenção de Viviany em simbolizar o sofrimento que transexuais sofrem no dia a dia e como também Jesus foi marginalizado, abri um pouco a cabeça e entendo sua expressão – aliás, não entendo porque só quem passa por esse tipo de agressão todos os dias sabe como realmente é.

A atitude de Viviany ficou ainda mais artística e lógica para mim quando vi a sensacional, única e digna capa da revista Placarcom o Neymar crucificado na capa. Oi? Neste caso sim: pra quê? Credo! Enquanto isso, Viviany rala para ter seus direitos básicos em uma sociedade que se arrasta por um Neymar que está fugindo da Receita por crédito indevido recebido pelo Barcelona.

A coroação de espinhos muito bem pensada sobre este assunto veio com o artigo de Gregório Duvivier, ator e escritor, para sua coluna na Folha de S. Paulo de hoje. Leia.




Querido pastor
22/06/2015


Querido pastor,

Aqui quem fala é Jesus. Não costumo falar assim, diretamente -mas é que você não tem entendido minhas indiretas. Imagino que já tenha ouvido falar em mim -já que se intitula cristão. Durante um tempo achei que falasse de outro Jesus -talvez do DJ que namorava a Madonna- ou de outro Cristo -aquele que embrulha prédios pra presente- já que nunca recebi um centavo do dinheiro que você coleta em meu nome (nem quero receber, muito obrigado). Às vezes parece que você não me conhece.

Caso queira me conhecer mais, saiu uma biografia bem bacana a meu respeito. Chama-se Bíblia. Já está à venda nas melhores casas do ramo. Sei que você não gosta muito de ler, então pode pular todo o Velho Testamento. Só apareço na segunda temporada.

Se você ler direitinho vai perceber, pastor-deputado, que eu sou de esquerda. Tem uma hora do livro em que isso fica bastante claro (atenção: SPOILER), quando um jovem rico quer ser meu amigo. Digo que, para se juntar a mim, ele tem que doar tudo para os pobres. "É mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no reino dos céus".

Analisando a sua conta bancária, percebo que o senhor talvez não esteja familiarizado com um camelo ou com o buraco de uma agulha. Vou esclarecer a metáfora. Um camelo é 3.000 vezes maior do que o buraco de uma agulha. Sou mais socialista que Marx, Engels e Bakunin -esse bando de esquerda-caviar. Sou da esquerda-roots, esquerda-pé-no-chão, esquerda-mujica. Distribuo pão e multiplico peixe -só depois é que ensino a pescar.
Se não quiser ler o livro, não tem problema. Basta olhar as imagens. Passei a vida descalço, pastor. Nunca fiz a barba. Eu abraçava leproso. E na época não existia álcool gel.

Fui crucificado com ladrões e disse, com todas as letras (Mateus, Lucas, todos estão de prova), que eles também iriam para o paraíso. Você acha mesmo que eu seria a favor da redução da maioridade penal?

Soube que vocês estão me esperando voltar à terra. Más notícias, pastor. Já voltei algumas vezes. Vocês é que não perceberam. Na Idade Média, voltei prostituta e cristãos me queimaram. Depois voltei negro e fui escravizado -os mesmos cristãos afirmavam que eu não tinha alma. Recentemente voltei transexual e morri espancado. Peço, por favor, que preste mais atenção à sua volta. Uma dica: olha para baixo. Agora mesmo, devo estar apanhando -de gente que segue o senhor.

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