quarta-feira, 15 de abril de 2015

Opções com validade

O que canso de falar é que nos tempos de hoje as pessoas não sabem lidar com as opções que existem aos montes em todos os pontos das nossas vidas



“Qual é a data de validade de um relacionamento?”. Normal que a pergunta venha com tudo o que está rolando por aí - e logo ali. Três amigas na segunda metade da casa dos vinte anos se divorciando simultaneamente. Não comemoraram os trinta e já possuem ex-maridos. Quantas outras há aí fora? Chato, sim. Necessário, também. Têm tudo para comemorar melhor a terceira década de suas vidas. E a minha resposta para a pergunta é “A validade vai até quando o relacionamento fizer bem para as duas pessoas”.

Difícil? Pra mim é simples até demais. O que canso de falar é que nos tempos de hoje as pessoas não sabem lidar com as opções. Opções que existem aos montes em todos os pontos das nossas vidas. Se um emprego não está bom, quantas novas possibilidades temos agora em comparação às que nossos pais tiveram? O mesmo serve para os relacionamentos. Casou, descasa. Juntou, separa. Estão longe, juntem-se. São virgens, transem. O grande lance das opções de hoje é não sermos tão apontados como seríamos em outros tempos. É gay? Por que não se assumiria? Não é a sua vontade ser mãe? Tudo bem, meu bem, não precisa. Quem é obrigado a quê?

E nós lá sabemos lidar com tudo isso? Com as várias opções? O conflito é enorme. Ainda chove jovem querendo se casar. E que fique claro: eu não tenho nada contra casamentos, da mesma forma que eu tenho certo comigo que o casamento no molde de antigamente – tradicional, conservador e cheio de regras e promessas impossíveis de serem cumpridas –, hoje, definitivamente é somente para quem possui esse mesmo perfil que o matrimônio dos nossos pais exigia. E quem tem isso hoje? E quem tem, diante de tantas opções, sem exceção, será que passa a não ter mais esse perfil?

        A receita de antes quase não funciona hoje. O bolo queima. Ou encrua. Eu acredito em duas pessoas passarem a vida juntas, em amor nessa proporção, mas é preciso liberdade para isso, espaço, espontaneidade. Não dá para forçar a barra com burocracias que não se justificam mais.

O tira-a-teima vem ao olharmos para os nossos próprios pais e seus amigos. São casamentos que passam as duas décadas de bodas-de-alguma-coisa e sobrevivem somente os que se adaptam melhor – e sobrevivência, anote, não é tempo junto, são felicidade e realização plenas. Estes pais são pessoas nas casas dos cinquenta anos lidando com a rotina e os deveres sem piedade do “unidos para sempre e a qualquer custo”. Alguns se saem bem, experimentam coisinhas novas na cama, usam bem alguma pornografia na internet, decidem ter cada um o seu apartamento depois que os filhos saem de casa – ou mesmo quando ainda não saíram –, às vezes apenas com a divisão de banheiros ou quartos isso se resolve, se permitem beber uma cerveja ou um vinho em plena terça-feira ou deixam de limpar a casa uma semana ou outra para dormirem até tarde no sábado. Fazem isso para viver melhor o casamento e ainda são mal vistos algumas vezes. Casais que se arrastam são os que mais apontam o dedo para esses que experimentam encontrar a sua forma de viver junto. E casamento lá pode ter dessas coisas? Ah, não, de jeito nenhum. Swing, troca de casais? Tá louco!? Cada um que ache o seu jeito.

Se o que é mais visto é o comum, o normal, a maioria é quem diz o que pode ou não, vamos ao que pode ser feito em um casamento para mantê-lo: o que pode é ter vida dupla; uma segunda esposa em uma segunda cidade; amantes na internet; desejos que não podem ser comentados. Assim a realização é perfeitamente saudável para o casal desde que um esconda do outro. A regra é essa. Pronto. Vai, pode ir que funciona. E se o parceiro começar a desconfiar que a coisa não anda bem entre vocês, arrume um filho. Não deu jeito, tenha outro. Anotou?

Definitivamente tudo na vida depende do que fazemos com aquilo. A internet? Pode ser usada para o bem e para o mal. A confiança de alguém, idem. A pergunta no início do meu texto é do meu namorado. Dá medo estar em um relacionamento nos tempos atuais? De jeito nenhum. Estar fora de um? Igualzinho. O que sempre temos é a nós mesmos e as várias opões para sermos sinceros com o que realmente nos faz bem ou não. Bem mais fácil viver assim.




*Imagem | http://createinnovateexplore.com/wp-content/uploads/2015/01/hengki-koentjoro-masks-1343448643_b.jpg


2 comentários:

J. Hugo disse...

Ótimo texto, Matheus.
Encontrei esse blog procurando o outro, Virando Jornalista, e que bom ver que você continua escrevendo. Paz e Luz pra você.

Matheus Farizatto disse...

Uau, Hugo, que surpresa boa! Obrigado demais por passar por aqui também, espero que curta a nova cara e os novos textos. Desejo o mesmo para você. Um abração.