sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

A euforia do fim

E quando sabemos que vai acabar, que a vida de solteiro está logo ali
no tapete da porta de entrada da casa


A maior rede de locadoras que Ribeirão Preto (SP) já teve está fechando. Loja a loja, a Genius Vídeo é apagada da sequência de comércios nas avenidas e em pouco tempo uma farmácia ou outra lojinha de lingerie vai enganar a nossa memória como se nunca tivesse existido o lugar com prateleiras e corredores cheios de dvds. Da mesma forma que o vilão da época, o dvd, fez com a mocinha vhs. E o Netflix finda as locadoras.

No fechamento de uma das últimas lojas, a tradicional liquidação com vídeos a preço de porta-retrato barato. Eu garanti alguma coisa para a minha coleção e faço questão de manter o selinho “Lançamento – Devolução 48 horas”. Só para manter aquele gostinho de primeira locação. Mistura de euforia com os preços e tal material à disposição, e tristeza com o fim de algo que faz parte da nossa história.

E nos negócios dos relacionamentos, ao começarmos a falir em uma relação, quando é o momento de admitir isso e baixar as portas? Até que ponto pensar em tal liquidação nos anima e nos entristece?

É interessante como isso varia de um para o outro, de situações previstas para surpresas desagradáveis. Nem sempre os sinais são claros. Mas vamos considerar quando são.

A gente sabe onde vai dar. Bate aquele desânimo, brigamos cegos, então vem a fase de ignorar o caminho que a relação está tomando, empurramos com a barriga. Refazemos as contas mas não há empréstimo que dê jeito. Tudo que não é natural não se sustenta. Então a falência está declarada. Pode ser por mudança nos jeitos dos dois. Talvez no jeito de um só. Ou simplesmente o negócio já começou falido.

E quando sabemos que vai acabar, que a vida de solteiro está logo ali no tapete da porta de entrada da casa, pronta para a liquidação, nos esperando para nos pegar pela mão e nos levar para o novo caminho, é triste, é animador.

Triste por não sabermos para onde seremos levados. Isso ao mesmo tempo nos deixa eufóricos – principalmente se houver a certeza de que ali, dentro daquela nossa loja, tudo o que poderia ser já foi feito. Então a tristeza de olhar para as prateleiras vazias e não saber o que a vida reserva também para aquele seu sócio de tanto tempo. Item a item começa a ser levado pelo passado comprador – e a casa desse cliente será o novo lar de tudo o que já foi o seu maior negócio.
       
        Mas empreendedores não se contentam com uma vida sem expectativas depois de ter que mudar de área. Então a euforia de investir em algo nos guia até chegarmos ao nosso melhor lucro: aquele que conquistamos para nós mesmos e a partir de nós mesmos.


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