segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Quem sobrevive

Há tempos percebo isso e a cada dia me convenço mais: as pessoas não sabem lidar com opções


Desde o filme “Dançando no Escuro” não assisto a algo tão perturbador. Enquanto no longa dos anos 2000 Lars von Trier explora a crueldade do ser humano em tirar proveito e prejudicar outras pessoas, o filme “Homens, Mulheres e Filhos” (2014) – do diretor de “Juno” e “Amor Sem Escalas”, Jason Reitman – veio disfarçado de comédia, com título extremamente comum e me surpreendeu com o drama sobre como essa nossa espécie tem o dom de fazer mal a si mesma, ainda que individualmente, especialmente com o uso das novas tecnologias.

Ponto para a cena em que o menino, sozinho em seu quarto, troca mensagens com a menina se insinuando sexualmente enquanto a garota retribui – supostamente no mesmo clima que ele – caminhando pelo shopping com a sua mãe sem dar a menor moral para o coitado. Para coroar, a sequência rola ao som de “I Feel Love”, da Donna Summer.

E você, sente o amor? Quando sente, quer saber o que mais poderia sentir. Quando está fora, quer saber o que há dentro. Quando confortável, pula todas as cercas para ver como está ali fora. E sempre juramos não ir muito longe. Para tudo isso, quer incentivo melhor que a tecnologia? Atualmente existe site especializado até em relações extraconjugais.

O que dá para ser feito? Dá para simplificar. Filtre o que te serve ou não. Não, não se pode ter tudo. Já ouviu isso? Pois é. Ao menos não o “tudo” que há no cardápio de hoje. E, sim, dá para ser feliz sem aquele “excessinho” que você quer tanto experimentar.

Há tempos percebo isso e a cada dia me convenço mais: as pessoas não sabem lidar com opções. Afinal, como diz o cartaz do filme “Todos estamos à procura de uma conexão melhor” – no trocadilho entre internet e relacionamento.

Falamos sobre promover o diálogo, as conversas com maturidade por conta de tanta informação exposta para todo o mundo atualmente e o que fazemos? Um casal de meia-idade acha que o caminho é dizer “abertamente” que está sentindo falta de sexo e então marcar o dia para transar em vez de chegar realmente onde é necessário para resolver “o tal” problema fazendo “o tal” uso da “tal comunicação cabeça aberta” tão propagada nos programas de entrevista.

“Homens, Mulheres e Filhos” mostra dramas familiares que envolvem dos filhos adolescentes aos pais como casal, aos pais como indivíduos. Trata de anorexia à promiscuidade. Tudo com a conturbada mão pesada da tecnologia e suas várias possibilidades sobre a vida que levamos hoje. Da mãe neurótica que rastreia a filha o tempo todo na internet até a gostosinha que vende assinatura de suas fotos em seu site exclusivo, ao adolescente de 15 anos que não tem ereção com uma mulher pessoalmente por tanta exposição à pornografia online.

Só não me senti pior durante as mais de duas horas no cinema porque meu celular estava desligado e eu sinceramente não me importava se alguém tentasse falar comigo naquele meu momento “eu comigo”. Eu ainda tenho salvação! Mas me salvo por pouco.

E as lições do filme são claras: com a internet não há mais como voltar depois de nos expormos; ninguém está imune às novas tecnologias e a maioria não sabe lidar com isso. Portanto, às vezes é simplesmente melhor ignorar o problema do que tentar agir como se tivesse domínio sobre ele, mostra o filme. Mas eu não acho.


Trata-se de uma comédia como apresentada em algumas sinopses? Até é. Tem Adam Sandler, então... Mas, não. Todo esse lance não pode ter graça. Só se for para rirmos de nós mesmos e a situação tosca em que vivemos. Sobrevive quem se impõe alguns limites.



2 comentários:

Lucélia Muniz França disse...

Que as realizações alcançadas neste ano, sejam apenas sementes plantadas que serão colhidas com maior sucesso no ano vindouro. Feliz Natal e boas festas!
http://www.luceliamuniz.blogspot.com.br/

Matheus Farizatto disse...


Bom novo ano para você, Lu!
Beijão.