domingo, 2 de novembro de 2014

Senhoras e senhores: a aberração que eu sou!



Meu lugar é mesmo com os estranhos que se questionam sobre o que realmente faz bem a eles
e que não têm vergonha de assumir isso






O Halloween nunca me fez tão bem como agora. Tanto que, dias depois da comemoração, ainda estou me fartando de travessuras. Deixarei as doçuras para o Natal.

Aliás, a data do Bom-velhinho já foi a minha favorita. Não mais. O 25 de dezembro passou a me dar medo. Muito medo. Diferentemente do Halloween em que as criaturas mais bizarras caminham pela Terra. Sinto-me em casa com as aberrações.

Eu me refiro às verdadeiras criaturas que assustam as pessoas, não àquelas que vestem fantasias e máscaras para mostrar o seu lado “estranho” em um único dia no ano. Gosto do originalmente bizarro, do naturalmente diferente. Eu sou um deles, definitivamente uma aberração.

Nada me assusta mais que o comum. Nascer, casar, morar junto e ter filhos. Meus Deus... Mal consegui escrever isso. Meninos e meninas recém-casados, ainda na casa dos vinte, falando sobre quando ficarão “grávidos” – sim, eu sei, só a mulher fica grávida, mas é que criaram essa expressão, “grávido”, para ver se alguns homens participam ou pelo menos fingem se interessar por esse momento. Tenho calafrios.

Logo virá o Natal. E tão logo a pergunta: ”O que dar para a minha esposa?”. Sim, para ela, a mulher que muitas vezes o cara não se importa o ano todo, ou, se importa até demais para que ela não desconfie da sua segunda, às vezes até quarta, família.

Uau, eu vou ser odiado, marginalizado por esse comportamento, como uma verdadeira aberração deve ser tratada. Mas eu aceito. Ou eu não seria um legítimo monstro. “Direi a você quem são os monstros. As pessoas de fora desta tenda, na sua cidade, em todas estas cidadezinhas. São as donas de casa amarguradas, cheias de tédio enquanto dormem com seus maridos assistindo a comercial de sabão em pó e sonham com estranhos prazeres eróticos. Elas não têm alma...”, define Elsa, a personagem dona do circo de aberrações da série de TV “American Horror Story: Freak Show”.

Menos, né? Exagero definir as coisas assim. Pois eu aceito ser uma aberração. Afinal, não me identifico mesmo com a maioria. Pessoas tão lindas e perfeitas.

Sério. Eu não tenho absolutamente nada a ver com mulheres que perdem os cabelos para não perder os maridos promíscuos. Eu não me vejo em pessoas que dizem acreditar em casamento enquanto esperam pelo marido não estar por perto para poder flertar com o cara do trabalho pela internet. Eu não consigo levar a sério o plano de se casarem dos noivos que se ofendem e se desrespeitam todas as semanas. Do casal que não queria engravidar e que briga quando descobre a gravidez, mas que, na frente dos outros, diz estar muito feliz com a notícia enquanto todos lhes dão parabéns e seus pais lhes dão o apartamento para morar. Eu definitivamente sou uma aberração por não entender as pessoas que transam fora do casamento em escapadas durante a semana e que passam as noites de sábado nos colos de seus maridos e esposas depois de jantar fora. Até que a morte os separem? Amém.

Será que é por que eu sou gay? Mas eu também posso morar junto e ser pai. Bem, ao mesmo tempo eu também me vejo em nada em casais de homens que já chuparam boa parte dos amigos que eles têm em comum.

Eu não nasci para ter filho e não sou verdadeiramente pleno ao morar com alguém. Uma aberração, eu sei. Meu lugar é mesmo com os estranhos que se questionam sobre o que realmente faz bem a eles e que não têm vergonha de assumir isso. É com as criaturas que se expõem porque vivem o que sentem.

Está com mal-estar? Normal, aberrações causam isso nas pessoas. Mas não se preocupe, eu não posso te fazer mal algum. É só me deixar de lado, no meu lugar, fora de tudo isso. Eu agradeço. E desejo bom Natal para os normais.




7 comentários:

Arthur Claro disse...

Muito bom esse post, parabéns. Como diz a Pitty, "Seja você, mesmo que seja bizarro", se você é autêntico, não há nada de errado.

Arthur Claro
http://www.arthur-claro.blogspot.com

Matheus Farizatto disse...


Obrigado, Arthur. E você, por favor, faça o mesmo. Seja o tal bizarro rss. Um abraço.

Francine Ribeiro disse...

Matheus,
amei o texto! Eu também sou meio aberração! Essas coisas de 'gente normal' não combinam comigo. Essa vidinha chata, da qual todos se orgulham e, basta alguém virar as costas para despejar as reclamações, também não combina comigo! Eu também costumo causar mal estar nas pessoas, falando coisas que ninguém quer ouvir! E me sinto uma aberração cada vez que falo que não quero ter filhos. É assim mesmo que as pessoas me olham, com cara de quem ver assombração...rsrs
Abraço pra vc

Rodrigo Ziviani disse...

Pagando a visita, rsrs. Adorei esse texto. Nem preciso explicar o motivo, né? Explico mesmo assim: a genuína felicidade está em ser autêntico. E autenticidade tem pouco a ver com os normais. Abs!

Matheus Farizatto disse...

Oi, Francine. Uffa... Estou mais aliviado por saber que não somos os únicos rss. E que talvez somos ainda mais do que imaginamos.

Certo, Ro? Obrigado demais pela visita. E realmente, como te conheço – Oh, Grande Aberração! rss – nem precisaria se explicar.

Definitivamente, "a genuína felicidade está em ser autêntico". Sempre.

Thanks!

Aline Sandoval disse...

Querido, amei o texto, de alguma forma me sinto próxima, mas não me sinto uma aberração, somente diferente!
Não concordo com esse modo de vida, até por isso nunca tive coragem de viver "o amor" longe da "minha" casa, porque não aceito essas atitudes fora da relação e ao menor sinal dessa possibilidade as coisas perdem a graça. Se me entrego é por inteira!
Também não faço questão de casar e ter filhos, não me vejo morando com uma pessoa a vida toda, mas se acontecer vou curtir da mesma forma e meus filhos serão muito amados.
PS.: Adoro seus textos, principalmente porque falam de comportamento que é meu assunto preferido!
Bjss!!

Matheus Farizatto disse...


Obrigado, Sandy. Adorei o seu comentário. Mais ainda o seu jeito de ver as coisas. Thanks. LOVE