segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Embreagens e referências

Solto a embreagem aos poucos e sempre que preciso,
peço referência porque é preciso prática


De repente, estou pedindo referência. Confio em mim, mas nem sempre adianta se não há experiência.

Lembro-me de quando comecei as aulas, ainda teóricas, para conseguir a minha habilitação para dirigir. Nunca antes havia subido em uma moto para conduzi-la. Até então, sempre era o passageiro. Em carros, idem. Não conhecia a sequência: embreagem, marcha e acelerador – soltando a embreagem devagar para o carro não “morrer”.

E quem te ensina a soltar a embreagem no tempo certo? “Vai aos poucos, Matheus”, ensinou meu pai. Ele também me disse que a embreagem muda de um carro para outro. “E como eu faço se o que usarei no dia do meu exame for diferente deste?”, perguntei. “Tem que sentir o carro, conforme você tirar pé da embreagem”.

Tenho soltado devagar esse pedal. Bem aos poucos. Esperando ter a falha certeza de que o carro não vai “morrer”. Segurando-me no acelerador mesmo que eu saia com meu veículo aos soquinhos, engasgando, soluçando... Compensarei ali na frente, quando pegar o jeito.

A falta de referência é terrível. E para algumas coisas não se compra. Como é com o amor. Nos faz achar que sabemos como fazer. E eu amei de verdade somente uma vez. Pé na embreagem. Não tenho passado da primeira marcha. Só dirigi um carro. Levou tempo para entender a troca de pedais para que ele saísse bem. Ainda mais tempo para estacioná-lo de forma experiente, com calma. Então, fazê-lo parar, sem “morrer” e me pegar de surpresa.

Solto a embreagem aos poucos e sempre que preciso, peço referência porque é preciso prática. Bobagem quem diz que algumas coisas funcionam como andar de bicicleta. Que, quando se aprendem, saberá fazer para o resto de sua vida.

Ande em apenas uma bicicleta e então experimente a vida sem essa. Anos depois, suba em outra. Coloque-se em uma enorme descida e tente fazer aquela curva fechada. E ainda pode haver areia no chão.

Viver sem referência é se expor ao extremo. É a fita cassete ainda sem gravação. Só nos resta o que já conhecemos e o botão “Pause” que segura o “Rec” antes que a coisa toda comece a rodar. É a embreagem que segura o carro até que você o faça sair.


Uma referência. Tenho o botão e o pedal.


6 comentários:

Brendha Cardoso disse...

Ual, que crônica reflexiva, haha. Simplesmente adorei a analogia entre amor e "não deixar o carro 'morrer', soltando a embreagem devagar". Genial. E eu também tive esse pensamento de que é errôneo levar o "lema da bicicleta" pra vida.

onlyb13.blogpost.com

Matheus Farizatto disse...

Oi, Brendha! Obrigado.

Será que mais alguém nos acompanha nesta da bicicleta? rs rs

Beijo e uma ótima semana pra você.

Marcius Ariel disse...

Em cada relacionamento, um aprendizado. Em cada fase da nossa vida, uma maneira diferente de agir. Hoje vejo que a maturidade não vem de um dia para o outro. A prática de soltar a embreagem aos poucos é o termômetro de que finalmente encontramos um pouco do equilíbrio entre a razão e a emoção. Isso nos ajudará a tomar decisões firmes não só em relacionamentos amorosos, como também, em questões importantes da vida.

Excelente texto Matheus!

Matheus Farizatto disse...


Hey! "A prática de soltar a embreagem aos poucos é o termômetro de que finalmente encontramos um pouco do equilíbrio", excelente.

Obrigado pelo comentário, Marcius. Ótimo tê-lo por aqui.

Abração.

ouro disse...

Otimo texto, muito bom mesmo

Matheus Farizatto disse...

Obrigado, ouro (?!). Você é muito gentil. ;)