terça-feira, 13 de agosto de 2013

Hot dog


 
Tão prazeroso o sabor das coisas simples


A novela “Amor à Vida” me trouxe uma memória tão gostosa quanto a história que é contada em um dos núcleos da trama: a do hot dog de rua. 

A personagem Márcia (Elizabeth Savalla) é vendedora do lanche nas ruas de São Paulo para sustentar a família e vive um romance com o simpático – e ricaço – “Gentil” (Luis Melo), que sofre de perda de memória mas se rendeu ao irresistível hot dog de Márcia – pronunciado com tanto carisma por ambos.

E quem resiste? Na história de Walcyr Carrasco o hot dog nos remete a mensagem direta de que não importa o dinheiro que tenhamos, o gostoso mesmo é ser simples.

Na minha vida, hot dog já foi buffet de evento de família. No domingo eram comidinhas da vó, mas sempre que rolava um encontro “extraordinário”, sem motivo especial, lá estavam os vários saquinhos com cachorros-quentes sobre a mesa, um para cada. Nos aniversários de criança, surgem em miniatura acompanhados de guaraná. No namoro, é uma delícia de se preparar em casa e se esbaldar, matando a fome depois de... Namorar.

Para quem está na rua, o hot dog é opção rápida, barata e gostosa – sempre tão caprichados! Aos homens e, principalmente, às mulheres que estão dentro dos “carrinhos” ou na traseira das famosas vans, desenhando o milho sobre o molho de salsicha, é jeito admirável de ganhar a vida.

Quando criança, ir à casa da minha tia na cidade vizinha durante o fim de semana era sinônimo de hot dog na chapa, no capricho, saboreado na pracinha em frente à igreja. Guaraná tomada no canudinho e saquinho de plástico guardando a batata palha que caía por excesso de recheio. 

Provocado por Márcia e Gentil, lembrei de um carrinho de hot dog no bairro. Que fome!

Com quatro mesas simples de plástico cheias de pessoas comendo e aguardando seus pedidos para a viagem, a simpática senhora – dona e cozinheira – me atendeu e preparou meu hot dog "misto", “num instante!”. Enquanto preparava os sanduíches calmamente em frente à chapa, sua neta – uma criança, talvez com seus nove – anotava os pedidos e mantinha a ordem nas mesas.

Enquanto eu e os outros aguardávamos, a senhora comentou em tom de melhor de amiga de todos que seu carrinho mudaria de lugar na próxima semana. “Vamos para logo ali, estão vendo? Na casa branca! Tive que alugar”, contou apontando para o outro quarteirão. “Mas o que aconteceu, Irene?”, perguntou uma cliente com ar de vizinha que todas as noites busca um lanche no carrinho. “A farmácia pediu a calçada (em que o trailer está estacionado em frente) de volta. Desde dezembro estava procurando um jeito. Ali vai custar duas vezes o aluguel que pago da minha casa, mas já fiz as minhas contas e vai dar”, explicou a senhora com a mesma serenidade com o qual me recebeu.

Dona Irene fará um ótimo trabalho no lugar “que vai caber mais gente ainda”. Se não der certo, tenho certeza que arrumará uma nova esquina para seu carrinho e avisará seus fiéis clientes. De um jeito ou de outro, ela e sua neta farão o sustento da família com a estrutura que mais precisamos para trabalhar: a vontade. E meu hot dog estava delicioso.


2 comentários:

Rodrigo Ziviani disse...

O meu hot dog é melhor que o da Márcia.

Matheus Farizatto disse...

Muito melhor! Eu sei.