quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Tem que dar




Até que ponto vale a pena fazer as coisas por falta de argumento
em vez de seguir seu próprio gosto para as coisas da vida?


O que o cabeleireiro disse na conversa entediante de nosso último encontro, me incomodou. Passou do ponto chato de ele achar que deve puxar assunto comigo enquanto borrifa água em meu cabelo e chegou ao “eu não acredito que ele disse isso”.

Na verdade, foi só mais uma confirmação. Não deveria me surpreender. Neste mesmo bairro deve haver, pelo menos, trinta salões dos quais vinte e nove proprietários como ele devem achar que a vida não faz sentido se não tivermos filhos – a exceção deve se chamar Margô e ser uma dona de salão de beleza porra-louca-bem-resolvida que curte conhecer novos motéis com seu namorado mais jovem.

Mal começou com a tesoura e minha vontade foi levantar da cadeira e ir embora quando o meia-idade soltou, “ah, mas essa coisa de viver pra gente cansa. Aproveitei muito a minha juventude (todos os adultos com algum tipo de frustração por sua situação atual dizem isso repetidas vezes). Mas logo virá a vontade de casar e ter filhos”.

Rá! “Pois é, a maioria segue isso, mas eu não me vejo cansado por viver para as coisas que realmente gosto”, respondi no ápice da minha unção.

No trabalho, um colega me pediu opinião sobre um assunto e logo depois de eu comentar, acrescentei: “o principal é não forçar a barra”. Está aí. Ponto pra quem capta.

Nada pior que aquela conversa da tia sem recursos que diz que “pé de pobre não tem número. Se é calçado doado, tem que servir”. Desculpe-me, tia, mas não tem, não.

Até que ponto vale a pena fazer coisas por falta de recurso ou argumento em vez de seguir seu próprio gosto para as oportunidades da vida?

Admiro demais a amiga que recusou a proposta de um cargo de gerência por achar que aceitá-lo seria embalar no que todos querem e ir contra os valores com os quais ela tem afinidade.

Que saudade daquela que, depois do casamento convencional com um cara tosco, se divorciou e hoje é feliz morando com um tatuado boa praça que de vez em quando recebe na casa deles os filhos do primeiro casamento para o fim de semana – mas ela tem muito claro que engravidar ela não quer.

Vontade de tomar um café com outra amiga que, após quase dez anos de namoro, terminou por perceber que o conservadorismo do rapaz limitaria seus projetos pessoais. Tem que dar? Agir conforme a moda não dá.

Tem que morar junto? Tem que casar? Tem que dar? Que nada. Perco a paciência ao ver pessoas enchendo o Facebook de juras de fidelidade e família feliz “marcadas” para seus parceiros na tentativa de forçar uma situação em um relacionamento cheio de problemas, enquanto todos os outros da rede social tem que fingir que acham aquilo uma prova válida de amor. Tem que dar? Autoafirmação não dá.

A revista Época trouxe a excelente capa “Filhos e felicidade – As crianças deveriam tornar a vida dos casais mais feliz. Por que nem sempre é assim?”. O elogio é pela serenidade da matéria em dizer que as pessoas seriam muito mais felizes se seguissem seus próprios princípios em vez de entrar no que é ditado pela sociedade sem antes se perguntar se realmente servem para aquilo. E mais: fala sobre a dificuldade que as pessoas têm em reconhecer as frustrações que surgem no casamento tradicional e na criação de um filho.

O “agora comecei, então tem que dar certo” nunca foi esteve sem lógica e ao mesmo tempo tão em alta. Uma pena.

Já fui casado de morar sob o mesmo teto, já conversei sobre possíveis nomes para um filho, mas na maioria das vezes que algo me incomodou não forcei a barra. Coitado deste autor que viverá para si e suas paixões que só envolvem seus gostos? Feliz dele e daqueles que se questionam e se posicionam sem medo de ser a minoria livre das engrenagens desta Indústria do Dá Sim.


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Pode comentar, VIU?

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8 comentários:

Tê Marçal disse...

Oi Fioti...saudades! Li agora há pouco essa matéria INCRÍVEL sobre os filhos, até que enfim alguém disse o que eu senti e sinto ainda hoje. E isso não diminui meu amor, mas amor mão vive de mentiras e ter filhos é tatuagem na cara, pro resto da vida, sem rota de fuga. Se você me perguntasse se eu teria filhos hoje, eu diria que NÃO.
Li também a matéria sobre as Clínicas de Sexo tântrico e postei no BEM AQUI... um pequeno tratado sobre o sexo ao longo da história, chegando aos dias atuais, com o sexo virtual e o comércio agora "inovando" com o sexo pago pelo massagista "tântrico"...enfim, passe lá quando puder. É um convite.

Um beijo grande!

Matheus Farizatto disse...

Nossaaaaaa! Que delícia ver a sua foto aqui de volta no VJ hehehe.

eu tinha CER-TE-ZA que você diria isso sobre ter filhos hoje. Estes dias lembrei de você pois minha mãe (a de sangue hehe) disse que hoje ela não casaria para morar junto. Pronto! Veio a lembrança da mãe de blog.

Passei o olho na matéria sobre sexo tântrico, mas ainda não consegui ler. De qualquer forma, vou me organizar para retomar as visitas a seus textos.

Um beijão. Adorei.


Lívia disse...

Que delícia, me senti abrindo o próprio coração aqui e agora. A todo o tempo me pego pensando e não entendendo porque as pessoas se apegam tanto àquilo que não as faz feliz... Gente é simples demais, a escolha de vida de cada um é igualzinha a um corte de cabelo: aquele Chanel que ficou chique e moderno na sua colega de setor, pode ficar esquisito e pouco prático pra você. Nossas escolhas têm que ir além disso, além do que parece bacana ou deu certo para fulano, ou do que vai resultar em mais facilidade e menos confronto. A vida de fato é muito curta pra quem faz valer a pena mas pode chegar se tornar inacreditavelmente lenta e chata pra quem só olha ela passar. Bjão lindo! Lívia.

Matheus Farizatto disse...

MA-TOU-A-PAU.

Tatuaria o "aquele Chanel que ficou chique e moderno na sua colega de setor, pode ficar esquisito e pouco prático pra você".

É identificação demais, né, Li?
Tão bom ter uma amiga assim por perto...

Um beijo.

Francine Ribeiro disse...

Matheus,
adorei o texto. Támbém me pego muitas vezes inconformada com esse bando de 'maria vai com as outras' que nos cercam. Socorro!! E aí da gente quando diz alguma coisa diferente, da-lhe ouvir: 'Ah, mas você vai ver daqui uns anos', 'É porque ainda não chegou a hora' e por aí vai.
Sei lá, eu nunca brinquei de mamãe e filinha! (Talvez nunca seja muito fornte, mas tenho certeza que não era minha brincadeira favorita, era chato..rs Minhas brincadeiras eram de ser mulher independente, trabalhar, viajar!) Bom, se as pessoas se preocupassem em descobrir o que elas realmente da vida ao invés de ficarem repetindo feito papagaio o 'que todo mundo faz' ou o 'que é normal', as pessoas seriam mais felizes!!
beijão pro c!

Matheus Farizatto disse...

Oi, Fran. Consigo imaginar suas brincadeiras quando criança, tipo, no Natal pediu a "Barbie Autosuficiente – sem marido nem filhos" hehehe.

Estas que citou – "Ah, mas você vai ver daqui uns anos', 'É porque ainda não chegou a hora" – também são clássicas e tão chatas quanto a do cabeleireiro.

Concordo demais quando diz que se as pessoas fossem mais originais, seriam mais felizes.

Um beijão! Thanks.

Marina Bartholi disse...

Oieee, que bom que gostou do meu blog, já estou te seguindo, me segue de volta?

Mas em qustão da matéria, realmente essa questão dos filhos é complicado pra qualquer um. Eu sou casada e tenho uma filha linda de 4 anos, confesso que no começo tive muita dificuldade, mãe de primeira viagem recem casada, mas foi o que fez eu me meu marido ficarmos mais juntos, sempre tomando as decisões juntos, filho é pro resto da vida, não tem como dizer que hoje quer e amanhã não quer mais.

Mas pra mim foi uma dádiva.
Também adorei os posts do seu blog.
Bjkas :)

Matheus Farizatto disse...

Oi, Marina! Muito obrigado.

Pois é, nada demais em reconhecermos nossas dificuldades. Natural que existam.

Um beijão.