segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Marcelo Serrado é fake



Nem sei se me desapontei. A homofobia é tão intrínseca nas atitudes que, mesmo quem diz “nossa, eu acho que amor é um só e vale para todos”, muitas vezes entrega o real pensamento: “eu não tenho nada contra homossexualidade, mas na minha casa eu não quero”. O ator Marcelo Serrado não agiu diferente.

Depois de anos na Record, o veterano voltou à Globo para dar vida ao Crô, personagem gay que cativou o público e colocou Serrado de volta aos holofotes com a novela “Fina Estampa”.

Em entrevista à coluna de Mônica Bergamo (Folha de S. Paulo), Marcelo Serrado fala sobre a vida de ator, fama e o personagem gay. Neste último, faz questão de dizer que não tem preconceito, mas frisa que não gostaria que sua filha de 7 anos assistisse a um beijo gay na televisão. E aí?

Casais héteros se beijam e muito mais em horário nobre e... que bom que a filha de Serrado pode apreciar o ato.

O assunto rendeu um artigo muito bom escrito pelo colunista da Folha de S. Paulo, Alexandre Vidal Porto, e você confere na íntegra aqui no VJ.

COMENTE após o texto.

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Marcelo Serrado, o equivocado
Por Alexandre Vidal Porto
Em TENDÊNCIAS/DEBATES na Folha de S. Paulo (13 de janeiro de 2011)

Sempre houve gays caricatos, mas em que novela estão os homossexuais comuns, que têm relações estáveis e acordam cedo para trabalhar?

Na década de 1920, a cidade de Berlim conheceu um dos períodos mais tolerantes da história em relação à homossexualidade.

Casais do mesmo sexo eram tratados com respeito, e a cultura homossexual era aceita sem constrangimentos. Essa situação propícia se manteve até a emergência de Adolf Hitler, que mandou dezenas de milhares de homossexuais para campos de extermínio, todos com um triângulo rosa no peito.

No Brasil, ocorre situação análoga. Lentamente, a conquista pela igualdade de tratamento para os homossexuais avança. Mas a luta é inglória. Quando se pensa que os avanços estão consolidados, surge um Silas Malafaia, um Jair Bolsonaro ou um Ives Gandra Martins para lembrar que a questão está longe de ser resolvida.

O último nessa linhagem de homofóbicos é o ator Marcelo Serrado, que interpreta o personagem homossexual Crô, na novela "Fina Estampa". Em entrevista à jornalista Mônica Bergamo, publicada na edição do último domingo deste jornal ("Arrasa, bii!"), Serrado expôs seu preconceito abertamente ao declarar que não gostaria de que a sua filha de sete anos visse um beijo gay na televisão.

Em sua conta no Twitter, o ator negou que fosse preconceituoso. Como se não querer que uma criança assista a um beijo gay nada tivesse de discriminatório. Exatamente como a senhora que diz que não é racista, mas que preferiria que a filha não se casasse com um negro.

A maneira como Serrado educa a sua filha é problema dele. Não se condena o teor de suas declarações preconceituosas, porque a homofobia ainda não é crime no Brasil.

O condenável em sua atitude é a negação do óbvio. Ele tem o direito de educar a sua filha como quiser, mas não pode enganar a população tentando descaracterizar a natureza do seu preconceito. Ou seja, Serrado é um homofóbico no armário. Precisa sair dele.

Serrado terá alcançado o auge da sua fama às custas da ridicularização dos homossexuais. Para ele, explorar a homofobia da sociedade brasileira deu certo. Para a Rede Globo, também, porque os índices de audiência da novela são altos. É triste, porém, que uma emissora de televisão preste tal desserviço à consolidação da cidadania.

A imagem desrespeitosa que a televisão brasileira difunde dos homossexuais pode dar lucro às emissoras e aos atores. No entanto, causa prejuízo ao Brasil como um todo, porque solapa os esforços do governo e da sociedade no combate ao ódio e à intolerância.

A caricatura homossexual que Aguinaldo Silva compôs e que Marcelo Serrado se presta a interpretar, por exemplo, levará anos para ser desmantelada no imaginário da nação. Produzirá discriminação e gerará violência.

Em defesa da novela, poder-se-ia falar em liberdade de criação artística. No ataque, porém, é necessário recordar a noção de responsabilidade social, que as redes de televisão têm o dever de preservar.

Homossexuais caricatos sempre existiram. Não temos de negá-los. Pergunto-me, no entanto, em que novela ou reality show estarão os homossexuais comuns, que têm relações estáveis, acordam cedo para ir trabalhar e levam uma vida convencional. Eles também existem. São muitos. Pagam impostos e exigem respeito.

Ah, e beijam-se também, Marcelo Serrado, como qualquer ser humano normal. Querer ocultar esse fato de sua filha ou de quem quer que seja constitui homofobia, quer você queira, quer não.

ALEXANDRE VIDAL PORTO, 46, mestre em direito pela Universidade Harvard, é diplomata e escritor

Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do jornal. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros e mundiais e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo. debates@uol.com.br

5 comentários:

Francine Ribeiro disse...

Bom dia Matheus!
Bom, eu não sou uma seguidora de novelas (pra ser sincera nem tenho tv na minha casa), mas assisti alguns capítulos dessa novela quando estava na casa dos meus pais, em dezembro.
Pra começo de conversa, achei que a Globo já tinha superado a fase de gays caricatos, mas pelo jeito não.
Quanto à declaração do ator Marcelo Serrado, me pareceu só um complemento do desserviço que ele está prestando à sociedade! Uma pena.
abraço

Matheus Farizatto disse...

Bom dia, Francine.

Pois é. Pelo jeito a coisa ainda vai muito longe. A menos que os anunciantes e a sociedade esperem algo diferente da emissora, o fim da "fase de gays caricatos" parece utopia.

Consegue imaginar o Malvino Salvador interpretando um homem discreto, que trabalha e tem um relacionamento sério – não um que morra na trama – com outro homem? Talvez no SBT.

Beijos, Francine! Thanks.

PIMENTA E POESIA (Maria Tereza) disse...

Faço minhas as palavras da Fran,quase não vejo Tv aberta e novelas faz uns 5 anos que não dou notícia, mas sei do que ocorre nelas pela mídia. Lamentável a postura de Marcelo, mostrando o nível de evolução espiritual e cultural dele, coitado.
Homofobia no meu dicionário é sinônimo de coisa obsoleta, medíocre e desumana. Vai contra o amor, a vida e a liberdade, direitos de todos. Um abração, querido!

Rodrigo Ziviani disse...

Nao vejo a novela, acho pessima. Marcelo Serrado esta ruim de doer. Me recuso a comentar de novo sobre a homofobia disfarcada da Globo, a qual, inclusive, ja me inspirou em um texto do blog. Novela da Globo, pra mim, eh carta fora do baralho para qualquer discussao decente. Bjo. Meu texto ta aki.
http://rodrigozivi2.blogspot.com/2011/08/plim-plim.html

Matheus Farizatto disse...

Ficam as diacas de Maria Tereza e Rodrigo Ziviani.

Obrigado!!!