terça-feira, 5 de julho de 2011

Está tudo bem



Eram duas da manhã. Seu relógio despertaria dali a três horas para o dia de trabalho. Mas ele pouco se importava. E ainda nem estava em casa. Longe de sua cama, adormecia apaixonado no colo de uma pessoa que o encantou desde o primeiro aperto de mão. Nem se preocupava com o retorno pra casa na madrugada quieta sobre a moto do desconhecido mototaxista.

Não tinha dia nem horário. A prioridade era um para o outro. Quanto mais tempo juntos, melhor. Cada segundo era tão valioso! A sede por essa companhia fazia com que ele mal conseguisse pensar. Racional? Nem cansaço nem outro compromisso. Aquecidos dia e noite: quando juntos, pelo colo; quando separados, pela aflição de querer estar junto.

Ciúmes e insegurança levavam um ao encontro do outro. Havia choros causados por sofrimento e outros por extrema felicidade. No colo, deitados, os olhares misturavam paixão e posse. As horas de dormir eram apaixonadas e por vezes tensas. Dormiam e acordavam abraçados. Dormiam e acordavam sem se encostar. Sempre dividindo a mesma cama.

No trabalho, havia a pressa para a chegada do e-mail de bom dia. A corrida de hora em hora para o lugar em que o celular tinha sinal, à espera de uma nova mensagem. Ao final do expediente: um para o outro. Família e amigos eram sempre segundo plano. Se pudessem estar juntos, aqui e ali estavam.

Saírem separados incomodava. Cadê a paz? Está no ficar juntos.

“Quando foi que deixamos de dormir juntos?”, se pergunta. “Quando foi que dormir separado porque ele ronca deixou de ser um problema?”. Isso é normal? “Sim, é”. Afinal, existem tantos tipos de casamento. Até mesmo aqueles em que nem sequer dividem o mesmo teto.

O amor verdadeiro é sereno, seguro. Tranquilo. Eles agora passam dias sem se ver por conta de compromissos que soam urgentes. No mesmo shopping, não se importam de não se encontrarem na hora do almoço porque está “muito corrido”.

“Por que não pegou em minha mão dentro no cinema?”. “Por nada, eu só estava com frio”, responde de braços cruzados. Almoços, bares e cafés com os amigos são frequentes. Cada um com seu grupo e também juntos, sozinhos ou com a turma.

Esfriou? Não. Morno? Sereno. “Serenidade é sinônimo de amor verdadeiro não é? Por favor, diga que é”... E o que ele mais diz e ouve é "está tudo bem".



7 comentários:

Francine Ribeiro disse...

Acho que sim, serenidade é sinônimo de um sentimento verdadeiro e que nos deixa seguros e em paz. No entanto, é preciso haver dias de paixão! Dias de ficar trancados entre quatro paredes sem querer ninguém mais que o outro. Mesmo depois de três ou seis ou doze anos juntos (pelo menos espero que nos próximos 3 anos anos ainda seja assim..)

ótimo texto!
abraço

Matheus Farizatto disse...

Nossa, Francine, gostei demais do seu comentário.

Vc está em um relacionamento? Passa ou já passou por isso?

Pergunto pois vc comentou de um jeito muito sóbrio e tranquilo, e não excluindo a importância de exister a paixão que às vezes dá o estímulo para a coisa.

Obrigado pela visita! É sempre ótima. Um beijão.

Gi.Lene disse...

Delícia de texto!!!!
E é isso mesmo, ao longo e passar dos dias, meses e anos, passamos a nos conhecer mais, e com isso vem a segurança, essa acomoda o coração e evolui, a louca paixão para o sereno amor, a pessoa passa a ser parte de vc, não q se transformem em um só, mas passam a confiar melhor no outro.
Como sempre seus textos são ótimos e expressivos.

Bjus e saudades mil de vc.

PIMENTA E POESIA disse...

Fioti, amore mio. Amei esse texto...olha, ontem postei um texto exatamente sobre o tema, a partir de minhas vivências,um pouco do que penso e vivo no meu casamento de 20 anos (22 juntos e misturados)e só te digo uma coisa: não estaríamos mais juntos se não fosse a paixão, a química, a profunda admiração e desejo de compartilhar tudo - dos últimos centímetros do fio dental, as TPM's, os sucessos, fracassos e claro, a cama, que a gente tem que aquecer sempre. Não acredito na serenidade assim...Mil beijos, coisa linda da mãe!

Matheus Farizatto disse...

Ah, Gi! Que gostoso!
É mesmo uma questão de tempo para isso acontecer. Muita gente não tem paciência e acaba abrindo mão do relacionamento logo no início quando surgem os probleminhas desta paixão toda... Adorei seu comentário e tô sempre com saudade de você. Um beijo, coisa pequena! hehe

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Pois é mom! A serenidade não pode ser confundida com marasmo. Se for assim, a segurança pula para o desinteresse. Tem que ser muito bem dosado.

Tô MUITO curioso pra ver seu texto. Estou indo pro seu blog AGOGA! rsrs

beijão, lindona do Brasil!

Francisco Silva disse...

Irmãozinho, como diria Nelson Rodrigues, isso é “a vida como ela é”. Infelizmente, essa serenidade soa, para mim, como o fim de qualquer relacionamento. Tudo tem seu início, meio e fim, e os relacionamentos não fogem a essa regra. Como em um texto, ele sempre se encerra, seja pela separação ou pela morte de alguém.

As brigas iniciais, que antes eram provocadas por qualquer motivo bobo, deixam de existir e passam a se chamar confiança. O amor, que antes era o fogo do relacionamento, deixa de existir e passa a chamar-se confiança. O ciúme, que antes doía, deixa de existir e passa a chamar-se confiança. O zelo, que antes estava em primeiro lugar, deixa de existir e passa a chamar-se confiança. O companheirismo, que antes era palavra chave do relacionamento, deixa de existir e passa a chamar-se confiança. O desencontro, que antes não existia, passa chamar-se confiança

Não deixe que o tempo minimize qualquer sentimento existente no relacionamento. Se ainda existir fumaça, é possível acender a fogueira, no entanto, se nem mais a fumaça existir, o caminho certo é acender outra fogueira.

Beijos e se cuida.

Matheus Farizatto disse...

Imãozaço!

Tenho que discordar de você. Como assim serenidade é igual a fim de relacionamento? Vamos deixar claro que este estado só é possível graças ao amor e este por sua vez é o alimento da coisa toda.

Serenidade é uma coisa, desapego é outra.

Discordo também que TUDO, com o tempo – conforme disse – leve à CONFIANÇA. Concordo apenas com: "As brigas iniciais, que antes eram provocadas por qualquer motivo bobo, deixam de existir e passam a se chamar confiança".

E com certeza, se ainda há sentimento, é sempre possível e PRECISO reacender a paixão!

Valeu o comentário. Adoro opiniões diversas. Beijo, lindaço!