quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Rinite e cinema

O que um cara de 36 anos quer em um primeiro encontro? É o que Déia também quer descobrir.
Há meses se trombando em baladas, micaretas e bares, Déia e Rini nunca saíram a sós. Se falam por MSN, imagino que troquem mensagens por celular, mas nada de um cinema ou uma bebida a dois. Meses e meses.
Entre teclas e intenções, Rini e Déia marcam seu primeiro encontro. Rini, 36 anos. Déia, é minha amiga, portanto, nada de idade. Um amiga bacana, baladeira, porém, romântica – é possível ser as duas coisas? Déia é. Uma romântica adaptada às baladas.
Sexta-feira, a moça chega ao escritório depois do almoço, desfilando suas madeixas platinadas recém tratadas e as unhas vermelho vivo. Loira. Linda. Ansiosa e feliz. É o dia de impressionar o rapaz no crucial “primeiro encontro”.
Na noite de sexta, ao chegar a sua casa após o trabalho, alimentar o cachorrinho de estimação e se arrumar são as únicas coisas previsíveis em uma noite como essa. As únicas coisas previsíveis mesmo. Afinal, após meses, quais são as chances de um “caso” mal resolvido – há mais de um ano e alguns meses - que mexe com ela até hoje, aparecer no dia do encontro com um novo moço? TODAS.
É sempre assim. Ouço sempre. É a prova de que “Sex and the City” é inspirado na vida real. Em situações reais. Quando a moça começa a se desvincular do “encosto” que - nem ela sabe o motivo, mas – a faz perder o trilho que estava seguindo, mesmo depois de decepção após decepção apoiadas no “pra mim ele morreu”, ele está ali, no visor do seu celular horas antes do novo encontro – parece adivinhar, ter um sensor que diz a ele “hora de estragar tudo”. Mas, felizmente, neste “caso Déia”, a loira foi mais forte e disse que não estava interessada.
Toma banho. Escolhe a roupa. Animalzinho alimentado. Noite de sexta. Cabelo ok. Esmalte ok. Qual sandália? A prata, ok. Toca o celular. “Será o infeliz outra vez?” – os “casos” mal resolvidos sempre insistem. Não desta vez. Era o Rini.
“Olá, lindo. Tudo bem?” – a loira animada.
“Oi, linda. Tudo mais ou menos.” – Rini, uma hora antes do encontro.
“Por que mais ou menos? O que aconteceu?”
“Não poderei te ver hoje. Estou com uma crise de rinite alérgica terrível.”
Uma hora antes do horário marcado: cai cabelo com luzes novas, sai sandália prata, cresce a cutícula da unha, suja a roupa recém comprada, o estômago revira de revolta e... “Tudo bem. Sem problemas. Marcamos outro dia”. Mulher é assim. A maioria é. O porquê? Sei lá. Não são todas, mas muitas são. Mas Deus é tão bom pra elas que elas sempre recebem a lição de casa com todas as lacunas já preenchidas. Mais cedo ou mais tarde. E para Déia, bastou uma noite de sono.
Sábado. Dia feliz. Noite no shopping, fechando com chave de ouro junto à irmã no café em frente ao cinema. E o cinema? Com uma sessão terminando neste momento. Déia sentada de frente para o fluxo que saía da Sala 02, cujas portas acabam de serem abertas. E seu petit gateau ainda quente, ainda gelado.
No fluxo, como um espirro, Rini rinite, em sua direção. Ao seu lado, em vez de uma caixa de antialérgico, uma morena um pouco mais baixa que ele.
Ela o vê. Ele a vê. Ela louca de ódio. Ele desconcertado de tão sem graça.
“Oi.”
“Oi.”
“O que faz por aqui? Não disse que ia para São Paulo?” – Déia costuma passar os fins de semana na cidade.
“Decidi não ir.” – diz Déia com um sorriso de “eu te mato, mas não vai ser agora, será aos poucos, e essa aí do seu lado é a tal Rinite?”. Mas se segurou.
“Ah, então está bem. Tchau.”
Irmã de Déia e morena baixa que o acompanhava? Se estivessem ali, a cor roxa no rosto de Rini fez com que as duas desaparecessem.
Minutos depois, a mensagem no celular de Déia: “Que cara de brava. Espero que não esteja pensando bobagem. Aquela era a minha prima de Ventania (PR). Beijo”.
Question: o que um cara de 36 anos quer com uma mulher após meses paquerando ela em baladas e quando consegue, aparece com uma crise terrível de rinite alérgica, uma prima de Ventania e um comportamento de “não sei onde coloco as minhas mãos e a minha cara” ao sair do cinema com a moça e encontrar a loira dispensada da noite anterior? Answer: maturidade. É isso que ele, pelo menos, precisa. Deveria querer também, mas não acho que seja o caso de Rini. Para mim, ele nem imagina o que é isso, afinal, na terça-feira seguinte, novamente no MSN, ele pergunta à Déia: “E aí, quando vou te ver?”. Déia conta a história para mim e me pergunta: “por que ele não mandou uma mensagem no celular, no sábado de manhã, já que ele estava melhor? Por que não me apresentou a tal prima ou pelo menos cumprimentou a minha irmã, já que era só um cinema com a prima?”
Rini, não gastou seus créditos de celular ou disse “boa noite” à amiga ou talvez “Déia, quero que conheça a minha prima” porque ele é um cara de 36 anos que freqüenta todas as baladas, micaretas e bares, sem ao menos saber o que já viveu até hoje e principalmente o que quer viver daqui pra frente. C'est La Vie!

E desconectado ao texto, mas recente em minha memória:

“O amor nunca morre de morte natural. Morre porque nós não sabemos reabastecer sua fonte”, de Paulo Coelho.

5 comentários:

Anônimo disse...

são todos iguais, só muda de endereço, ainda bem q esse mundo é uma ervilha.. rsrsrsrs

Luiza Pellicani disse...

Isso é só para comprovar que o mundo tem 15 pessoas ou até menos!
É como eu sempre digo para o meu namorado, se você fizer qualquer coisa errada de um jeito ou de outro eu acabo sabendo.
Isso já aconteceu inúmeras vezes, quando ele sai sozinho com os amigos dele tem sempre um conhecido que vem me falar... vc sabe onde seu namorado estava ontem?
E o melhor é que sempre, sempre mesmo, eu tenho a melhor resposta para todo mundo, na minha opinião. "Eu sei exatamente onde ele estava e com quem estava".
Fala para a sua amiga que homens assim, os quais podemos confiar, estão em falta no mercado, mas não é impossível encontrá-los.

Larissa Mango disse...

Má, adorei seu texto!
Pena que o contexto não seja tão favorável assim.
Mas há ainda uma boa chance de sua amiga, quem sabe um dia, marcar um encontro com um belo e sensato rapaz e dar a "sorte" de encontrar a rinite ambulante. Assim ele verá que a fila anda e que vingança é um prato que se come frio. Coitado!
As mulheres quando querem dar o troco, meu Deus, sai de baixo!
Bjos
Larissa

Larissa Mango disse...

Má, adorei seu texto!
Pena que o contexto não seja tão favorável assim.
Mas há ainda uma boa chance de sua amiga, quem sabe um dia, marcar um encontro com um belo e sensato rapaz e dar a "sorte" de encontrar a rinite ambulante. Assim ele verá que a fila anda e que vingança é um prato que se come frio. Coitado!
As mulheres quando querem dar o troco, meu Deus, sai de baixo!
Bjos
Larissa

Alexandre Carlomagno disse...

Grandíssimo Matheus!

Valeu pelo help!

Gesto retribuído!

Forte abraço.