quarta-feira, 29 de julho de 2009

O glamour de Barnabé

Não foi o barulho do elevador que acordou Barnabé em sua primeira manhã no apartamento do companheiro da cidade grande. O sono atrasado pelos dias de viagem em um ônibus de Vargem Bonita até a metrópole terminou em um susto com os latidos de seu cachorro que sempre o acompanha. Roto rosnava em direção àquilo que estava na cabeça de seu dono.
Ainda no travesseiro, o cabelo de Barnabé parecia ter patas. Até garras. Quase vida própria.
No cabeleireiro da avenida mais próxima, Barnabé estranhou a mudança de temperatura por causa daqueles secadores e chapinhas. Um de cada, para cada cabeça colorida das mulheres sentadas que falavam uma mais que a outra. Pensou estar entrando no milharal próximo a seu casebre em Vargem onde faz um calor só e os corvos gritam sem parar.
- Tem hora marcada? – perguntou a mulata de olhos pintados de verde e cabelos alisados.
- Quero dá um trato nesse texugo – disse o simplório, sorrindo e apontando para seu cabelo. – O meu Rotinho já tá até com medo de chegá perto de mim.
- Deixe-me ver. A Kin está terminando uma máscara capilar. A Lucky começou agora um desengorduramento de fios, esse leva horas! Bom, a Lina está livre.
Minutos esperando sentado entre bolsas enormes que lembravam sua sacola de feira em Vargem Bonita - porém com fivelas - e a mulher de cabeça vermelho e laranja o chamou.
- E então, qual é o corte? – começou Lina, refletida no espelho.
- Pode dá uma podada!
Sentado entre duas senhoras com riscos desenhados no lugar das sobrancelhas, Barnabé via sua cabeleireira usar uma tesoura que não cortava nada. Parecia só desarrumar seu cabelo, soltando apenas poucos fios sobre seu nariz.
No balcão a sua frente, entre frascos e potes, algumas revistas com o título “Vogue” o fizeram lembrar as repetições do padre César aos domingos, em Vargem.
- Só um minuto – disse Lina, saindo de perto de Barnabé.
A cabeleireira interrompera o corte para entregar a uma mulher de cara bastante esticada, que estava de saída, um vidro com um nome que o caipira leu e não entendeu.
- Aqui está, Malu. O creme para rejuvenescimento das mãos que lhe falei. É ótimo! – e espirrou um pouco nas mãos enrugadas da cliente.
Voltando ao seu trabalho aparentemente não terminado, Lina tirou um tubo metálico da gaveta do balcão, borrifou uma pasta em sua mão e em seguida massageou o que sobrou do “texugo” de Barnabé.
- Pronto! Agora sim. É o corte dessa estação: “desconectado e com mousse”! – terminou a cabeleireira.
Barnabé olhou-se no espelho. Seu cabelo todo desfiado e pra cima como se tivessem colocado um gato enraivecido em sua cabeça. Seu Rotinho, nem latia nem rosnava, apenas olhava ressabiado.

Barnabé pagou e saiu. No caminho de volta para o prédio de seu companheiro, o caipira lembrou-se do cômodo lá em Vargem Bonita onde dona Cida corta seu cabelo e faz sua barba na navalha, a preço de filãozinho, servindo café com bolo de laranja para os compadres.

2 comentários:

Rafa disse...

Valeu pela visita, garoto! Volte sempre ao EBDP.

Abs,
Rafa

Mariane de Almeida disse...

nossa, nem sei como entrei neste blog... é um tal de entrar em um sair por outro e assim por diante... Muito interessante seus textos. Você escreve muito bém.
Parabéns

Mariande de almeida
www.gazeteiradeplantao.blogspot.com