quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

Do outro lado do Natal

Escrevi este texto para o jornal interno (ComunicaAÇÃO) da Associação Comercial e Insdustrial de Ribeirão Preto na época em que trabalhava com a Comunicação Interna e Empresarial da entidade após uma visita à Penitenciária 1 de Serra Azul.
A experiência foi muito legal e me ensinou muito sobre a importância de não manifestar nenhuma emoção durante uma entrevista para que o entrevistado fique à vontade para falar sobre qualquer coisa, até mesmo as inesperadas.


Chegamos na Penitenciária 1 de Serra Azul - Lino Strambi, superintendente da Distrital Centro da ACIRP e empresário em Ribeirão Preto; Andréia, secretária da diretoria da ACIRP; a artista plástica Zélia Bogar; e eu – a janelinha no portão de ferro se abre para identificar quem bate, em seguida, entramos no saguão e começa uma rigorosa revista no detector de metais. “Tirem qualquer tipo de objeto metálico”, diz o funcionário do presídio. Então, tiramos chaves, canetas, celulares, anéis e até os cintos. Tapando o botão da calça jeans com uma das mãos, Andréia consegue passar pelo detector assim como os outros, alguns minutos depois. Entramos no presídio.
Portas e mais portas se abrem quando a anterior se fecha. Passam grades e mais grades. No caminho encontramos detentos que param junto à parede enquanto passamos. Na Penitenciária 1 de Serra Azul, os detentos são divididos em oito pavilhões. A divisão é feita de acordo com o comportamento dos homens, quanto mais alto for o número de seu pavilhão mais complicado é de lidar com eles.
Chegamos ao salão onde 18 detentos estão trabalhando na confecção de mais de 2 mil flores feitas com material reciclável para o projeto Natal Luz Ribeirão após serem orientados pela artista plástica, Zélia Bogar. A diretora da penitenciária nos apresenta a eles, a maioria nos olha com ar de admiração e respeito nos olhos. Enquanto continuam com o trabalho, caminhamos entre eles e procuramos puxar assunto. Há um certo receio em conversar com a gente e principalmente de nos olhar nos olhos, mas aos poucos começamos a ouvir os primeiros “senhor” e “senhora”, forma como eles nos chamam.
Jessé Ferreira é um dos detentos que está trabalhando ali, porém, como um tipo de monitor sobre os outros. A função, veio para o jovem de apenas 23 anos, preso desde os 20, com o merecimento através de seu comportamento. “Para a gente é bastante importante fazer este trabalho, pois além de servir como uma terapia, nos mantendo com uma ocupação, nos ajuda na ressocialização. É muito bom voltar a trabalhar e aprender a fazer um trabalho como este que usa material reciclado. Escrevi até um projeto social para ser feito junto com as escolas e um dia pretendo realizá-lo”. Jessé falou ao ComunicAÇÃO da importância de estar ocupado e fora da cela onde facilmente pode ser influenciado. “Lá dentro (cela) não temos o que pensar e as coisas chegam facilmente até nós. Ficamos pensando em coisas ruins e que não dão em nada”, conta. O detento ainda fala sobre o momento em que decidiu mudar sua cabeça e comportamento se envolvendo com trabalhos e cursos dentro do presídio. “É muito difícil receber uma visita de sua mãe onde todas as vezes ela está chorando por você estar ali. Decidi pedir à diretoria para me incluir nestes trabalhos e assim ajudar a reduzir minha pena e mostrar para minha mãe que estou me ocupando aqui dentro”.
Os detentos escolhidos pela penitenciária para trabalhar no Natal Luz Ribeirão são dos pavilhões 1 e 2, ou seja, os mais bem comportados. Em uma tentativa de dar uma chance aos homens dos outros pavilhões, o grupo que trabalhava na confecção das flores precisou ser trocado após o desaparecimento de uma das serras utilizadas para cortar as garrafas pet.
Seguimos para o salão onde 6 homens estão trabalhando na reforma da Casinha do Papai Noel colocada todos os anos em frente à esplanada do Theatro Pedro II. Eles fizeram um curso de marcenaria promovido por voluntários dentro da penitenciária.
Já estávamos bem à vontade no local e então conversamos com alguns dos detentos que faziam este trabalho. “Fazemos este trabalho para ver os pais que têm a oportunidade, levarem seus filhos até esta casinha e eles saírem sorrindo, pois para nós, o Natal é só mais um dia comum, mas este trabalho faz muita diferença em nosso dia-a-dia aqui, pois com esta atividade não penso em problemas, volto a minha mente para outros pensamentos. Seria bom se as empresas nos envolvessem mais nessas atividades que para nós traz melhorias em comportamento, disciplina e respeito. Assim, iremos sempre trabalhar bem e então nos comportar bem. Para nós, basta que a sociedade saiba que fizemos de coração”, diz Ricardo Alves Ferreira, 39 anos.
A maioria dos homens que conversei falava sobre a ocupação que o trabalho trazia, a forma como a sociedade os via, e da importância da participação das empresas em levar estes trabalhos até eles, mas, uma declaração em particular me chamou atenção, e esta foi feita pelo detento Antônio dos Reis Filho, 25 anos. “Em uma das visitas minha mulher trouxe para eu ver uma foto do meu filho de 3 anos onde ele aparece em uma casinha no colo de um Papai Noel com barba de verdade que tirou no ano passado. Este ano, fiquei sabendo que trabalharia na reforma desta casinha que meu filho esteve e sei que vai estar de novo neste Natal, mas agora sabendo que seu pai foi quem ajudou a reformar ela e que a primeira coisa que se preocupou foi em fazer uma casinha segura para ele e as outras crianças poderem ver o Papai Noel neste Natal sem correr nenhum risco”.
Andréia Prada, uma das organizadoras do projeto Natal Luz Ribeirão, acha importante envolver estes homens em ações como esta. “O trabalho é fundamental para os presos voltarem a viver em sociedade. Mais que isso, dá dignidade e faz o detento sentir-se produtivo, assim ele deixa de estar ocioso, relaciona-se melhor com suas famílias e tem maior chance de recuperação e ainda a possibilidade de entrar no mercado de trabalho após o cumprimento da pena”.
A artista plástica, Zélia Bogar, que coordenou todo o trabalho dentro da penitenciária, diz que as vantagens desta ação social são tanto para a empresa quanto para o detento. “O benefício de um trabalho como este é para ambas as partes. A empresa ganha com uma boa mão-de-obra e ainda uma grande ação social, e eles (detentos) ganham com o aprendizado e a ressocialização”.
“No princípio é um impacto estar lá dentro, mas isto é normal, só não sei dizer se o que senti naquele momento foi pena ou admiração. Esta, foi a segunda visita que fiz em um presídio e com o tempo que ficamos lá dentro vamos nos acostumando. Conversando com eles, nos falamos de igual para igual, homens comuns, uma nova experiência de vida”, explica o superintendente da Distrital Centro da ACIRP, Lino Strambi.
Os erros que eles cometeram, não sabemos, mas vimos de perto o quanto é importante que a sociedade não se afaste deles.

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