quarta-feira, 28 de novembro de 2018

É coisa minha



























“Já pensou quando o Matheus ficar velho?”, jogou minha amiga sobre quem iria me aguentar, depois de eu soltar mais uma das minhas manias de organização-fiscalização-“Por que tal coisa está de tal jeito?”. Entre ter um cachorro, uma calopsita ou superar o pavor de gatos para ter uma companhia na velhice, eu escolho aceitar que isso, simplesmente, é coisa minha. Mais uma, de tantas.

Não vão ser animalzinho, namorado, amante, marido, filhos de amigos – os próprios amigos – e parentes os responsáveis por mim na velhice, assim como não são hoje. Com ou sem companhia, somos e seremos sempre nós por nós mesmos. Partiu aceitação?

A real é que ninguém se importa de verdade com o outro. Nem tem tempo para isso. Ou interesse genuíno. Me incluo e esse texto é mais um exercício para melhorarmos no for possível como pessoas.

Perguntamos sobre o outro simplesmente por educação – comportamento que morre um pouco a cada possibilidade de manifestação na internet – ou para saber se aquilo que o outro tem para dizer se encaixa ou não nos nossos padrões. É o "Não" para o "Entender" e o "Sim" para "Julgar" ou comentar, printar, dar like, talvez até a deixar de seguir.

Comentei com outra amiga que estou conhecendo uma pessoa que está me fazendo bem. Na sequência de mensagens pelo WhatsApp, recebi: – Quantos anos o moço tem? Eu: – 25. Ela – Idade boa.. Mora sozinho? Tem carro?.

Daí para frente eu já tinha me arrependido de comentar sobre a experiência. Bem feito para mim. Afinal, isso é coisa minha.

Em um mundo em que quem não assiste a mesma série que você não serve para conversar, com quem vamos compartilhar as nossas questões?

Terapeutas vão continuar rachando de faturar, pois têm o dever de ouvir sem julgar. Quem não puder pagar, também vai rachar... De chorar, beber, dormir. Sei lá. Ou viver de esconder suas experiências, se isolar, guardá-las até chegar o dia de, literalmente, enterrá-las.

Para mim o interesse genuíno sobre o outro só é possível a partir do amor. Amar, sim, é trocar sem planejar. Receber e só agradecer. Oferecer e desencanar.

Eu escreveria sorte, mas vou trocar por milagre. Milagre de quem possui essa troca genuína na velhice. Não falo de estar com alguém, casamento ou visita em leito de hospital ou casa de repouso. Eu falo da entrega para alguém.

Aqui eu trago de volta a palavra sorte, mais acessível que o milagre. Sorte de quem é ouvido com profundidade, com os olhos serenos, a mente tranquila e o coração aberto de quem nos recebe. Seja quem for, quando, onde, como e por quanto tempo for. Aí sim é coisa nossa!

Às vezes um até então desconhecido está mais interessado no que temos a dizer que alguém que convivemos há décadas. Pode ser um jantar com o paquera de beijo desengonçado que se tornou um novo e bom amigo, com uma amiga da sua mãe, que você acaba de conhecer em uma roda de samba ou deitado no colchão do moço sem carro, enquanto cada um compartilha a sua história até ali.

Se não for assim, tudo isso é coisa sua. Só sua. E mesmo quando eu tenho a sorte dessa troca de interesse mútuo, até isso é coisa minha.



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terça-feira, 20 de novembro de 2018

Frases gostosinhas

De repente bate. Durante o banho, lavando a louça, ouvindo os berros de James Brown. Frases gostosinhas que naquele momento me remetem a algo e que tempos depois vão me levar a outros pensamentos ao ler cada uma delas novamente.

Corro para o bloquinho e a caneca. Divido com vocês. Compartilho sempre em meu Insta e na página do Caneca no Face.






sexta-feira, 9 de novembro de 2018

Nunca o suficiente




Não nos tornaríamos alguém diferente do que seríamos, se não sonhássemos. Assim eu defino a mensagem do filme “O Rei do Show”. Meu musical favorito. Assisti duas vezes no cinema, três em DVD. Ouço a trilha toda semana. 

Penso em escrever sobre o musical circense desde o dia 27 de dezembro de 2017 quando o assisti no cinema pela primeira vez, na noite do meu aniversário de 31 anos. O programinha salvou a minha data que, até então, não estava nada especial por conta do desarranjo intestinal mais louco que já tive e um cenário na vida pessoal que não me entusiasmava.

A experiência foi mágica. Foi mesmo. Não no sentido clichê, mas na sensação que eu tinha em cada cena, as cores, os elementos tão simples de um circo e a vida no século 18, com tecnologia na dose certa para não estragar essa simplicidade junto ao nó na garganta pela emoção em cada número musical. A condição de cada personagem mexia comigo. A história, a dificuldade e o sonho de cada um deles.

O transbordar para este texto finalmente sair são dois. Primeiro que as músicas do filme estão sendo relançadas em novas versões, gravadas por cantores famosos como Pink e Kelly Clarkson em um álbum chamado “The Greatest Showman Reimagined”.

Em segundo, o reencontro que estou vivendo comigo, me lembrando de quem eu fui e quem, finalmente, eu me tornei. Um Matheus que eu só imaginava em sonhos. E aqui estou.

O que a vida impõe para a gente e o que realmente está em nossas mãos?

No filme, o filho de um humilde alfaiate cria coisas a partir do pouco, sonha com a casa cheia de coisas que colecionou por suas histórias, sonha com a vida que gostaria de ter, sempre certo de quem ele vai trabalhar para ser. 

O protagonista interpretado por Hugh Jackman não se limita ao que supostamente ele estaria predestinado a ser e se torna um grande homem do entretenimento, sendo bem sucedido financeira e emocionalmente. 

O filme “O Rei do Show” se baseia na vida de Phineas Taylor Barnum, um showman e empresário norte-americano, lembrado principalmente por fundar o circo de aberrações que viria a se tornar o Ringling Bros. and Barnum & Bailey Circus. O cara sempre será uma referência criativa para o marketing.

Além da trama principal, as pequenas histórias dentro dela cravam a diversidade – a música “This is Me” é simplesmente perfeita – e a quebra de paradigmas – o romance entre os personagem de Zac Efron e Zendaya é um charme.

Entre os números musicais está o de menor produção e que me provoca maior identificação: “Never Enough”.

A música e a cena são perfeitas para essa pessoa aqui, que passou muito tempo se culpando por querer sempre mais e que agora entende que, graças a isso, eu me tornei quem eu sou e vou ainda mais longe, pois me lembrei da importância de manter a magia, de ser feliz com o suficiente, mas sempre se reinventar e, acima de tudo, nunca deixar de sonhar.


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terça-feira, 18 de setembro de 2018

Onde eu estava








A última vez que escrevi foi há mais de dois meses. Isso porque escrevo todos os dias, porém, no meu trabalho. Onde eu estava nesse tempo que não escrevi sobre mim, sobre coisas ao meu redor e o efeito que elas me causam?

Eu estava me cuidando. Me segurando a mim mesmo. Poupando a pouca energia que me restava para me manter no ritmo. Não havia o que doar além do que eu já entregava ao longo do meu dia. Nada além do que as situações em volta retiravam de mim sem ao menos perguntar “Posso levar mais um pedaço?”.

Durante esses meses, eu estava ouvindo. E lidando. Onde? Nas situações inquietantes das pessoas.

Na amiga que descobre que o câncer em sua mãe voltou depois de um respiro de alívio resultante de meses de sofrimento e de incerteza. Na outra mãe que lida com os questionamentos do seu filho ainda criança sobre a nova dinâmica dos pais separados. Na relação de pessoas que simplesmente não se dão porque imaginam coisas umas das outras e que, quando ouvimos os dois lados, vemos que não passam de interpretações sem sentido.

Nesses últimos meses, eu estava ali amadurecendo. Esse processo, como todo trabalho biológico para o crescimento dos seres vivos, desprende energia. Muita energia. Ela é o alimento para evitar a deficiência quando somos empurrados para sermos maiores do que éramos.

Recusei alguns encontros com amigos enquanto eu descobria onde eu estava. Teve até convite chique de casamento que foi parar na minha estante entre livros já lidos. Nunca estive na festa. Nem na igreja. O que vi foi pelo Instagram durante a única deslizada de dedo na rede social naquele fim de semana de recolhimento.

Vi uma pessoa que amo descobrir os desafios que vai ter que encarar para realizar o sonho de ser mãe. Por outro lado, ouvi sobre a filha que não fez questão de estar com a sua mãe neste Dia das Mães. Enquanto isso, uma outra filha se aproximava do primeiro aniversário de morte de seu pai na data bem próxima ao Dia dos Pais. Era ali que eu estava.

Fiquei vendo adultos que não assumem suas responsabilidades simplesmente porque estão debruçados na preguiça de seus altos cargos. Até porque sempre há alguém que fará o trabalho por eles. Pois se ninguém fizer, a conta não fecha. E se não fechar, alguém vai ser cobrado por isso. Advinha quem?

Eu estava ali vendo meu pai mudar sua rotina por motivos de saúde e minha mãe escondendo até o último minuto uma possibilidade que poderia ter virado as nossas vidas de cabeça para baixo.

Estive vendo familiares se afastarem cada vez mais por pura vaidade.

Logo ali, estava eu, em uma festa e outra. Encontrando um ex-namorado e outro. Um que fingia não me ver ali e o outro que evitava a qualquer custo cruzar comigo para não força um abraço cordial e nada mais.

Eu estive em um encontro em que o cara me convidou e pediu para eu ir curtir com outras pessoas e deixá-lo ali. Quando atendi seu pedido depois da terceira insistida, recebi a seguinte mensagem na manhã seguinte: “Eu disse aquilo da boca para fora... Eu esperava que você ficasse ali se dedicando a mim”.

Nesse tempo, estava recebendo outras mensagens que pediam para eu me afastar por eu não poder oferecer o que queriam, enquanto, dias depois, o mesmo me chamava com um confuso “Espero que me entenda. Saudade de você”.

Ou eu estava no Whatsapp com aquele cara que escreveu que havia uma notícia ruim para me dar. Disse que estava namorando. Eu desejei felicidades. Dias depois, me mandou uma nova mensagem dizendo que queria transar comigo. Quer notícia pior que essa para quem está em um relacionamento? A vontade por um outro... Onde eu estava? Ali, inconformado.

Certa vez eu estive na orientação de um senhor muito humilde que era assediado pela imprensa por ser suspeito de uma intenção de abuso sexual depois de dar carona para uma mulher à beira da estrada e o carro do homem. Semanas depois eu estava recebendo uma marmita com salgados feitos por ele como forma de agradecimento pela minha ajuda.

Ao estarmos abertos às pessoas como eu estou, conhecemos o pior e o melhor dessa experiência louca que somos nós.

Só agora eu percebo onde eu estava nesse tempo. Eu estive no meio de algo entre a certeza que sempre tive sobre tudo e todas as incertezas que a vida me impôs em cada uma dessas situações.

Posso dizer que estou um pouquinho acima dessa aflição. Consciente de tudo. No exercício de estar em paz para lidar com as pirações sem me fechar em uma caixa blindada para não ser atingido por elas. Aberto. Seguindo meu coração. Pedindo por sabedoria. É só por isso que agora estou aqui, escrevendo.


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quarta-feira, 18 de julho de 2018

Vídeos | Boteco das Ovelhas

Meu bate-papo sobre o trabalho aqui no Caneca, processo criativo, escrita e mais desse mundão digital enquanto rolaram petiscos e cerveja gelada no projeto da página Ovelhas Negras. Conheçam. PLAYit!






sexta-feira, 13 de julho de 2018

Pensei que amei


Sempre que falo sobre a gente, me refiro a ele como o meu maior amor, ele sendo a pessoa que eu mais amei. Me enganei. 

Ele me amou. Eu só achei que amei. Coitado de mim. Amar definitivamente não é para qualquer um e, sempre que ouvia isso, não entendia qual seria essa tal sorte que eu sempre achei ser receber o amor, ser amado, enquanto esse presente tão especial é justamente o contrário: é oferecer, não receber. 

Sorte a dele que, mesmo mais jovem, sabe amar. Sim, ele foi o mais próximo que cheguei de aprender um sentimento no qual eu talvez nunca me forme. Porque amar não requer disciplina ou condição.

Eu peguei DP, não colei grau, não tenho direito a comemorar o amor em uma festa de formatura. Ainda estou de recuperação. Mas estou fazendo a lição de casa de todos os dias. Porque amar não é desejar.

Eu desejei coisas sobre ele, para ele, por ele. Amar é não ter expectativa. Ainda mais quando somos verdadeiramente amados de volta. E nisso ele se mostrou mestre e doutro.  Eu fui amado como sou. Com qualidades e lotaaado de defeitos e um tanto de egoísmo. Desejar é egoísta. Amar é caridade, compreensão.

Me doei, sim, principalmente no começo. Graças a ele, recebi uma sementinha do que é o amor genuíno. Eu a cultivei, ele me ensinou a regá-la, mas nem tudo cabia a ele. Quando me deparei com o meu vasinho com uma linda muda do amor, eu errei a mão.

Errei porque amar é alimentar o outro, não se alimentar dele.  É cuidar. Entender. Abraçar tudo que o envolve. Amar é não cobrar, ainda mais quando se é amado de volta.

Eu até amei, mas depois descuidei. Me desnorteei por achar que amor é conquistar, crescer, mudar, ganhar e ganhar e ganhar. Quando na verdade amar é simplesmente compartilhar o que se tem, o que nós somos. Amar não é ganhar nem perder. Quem ama se sente vencedor sempre que houver empate.

Que sorte a minha conhecer o amor tão de perto. Prefiro um câncer a um dia esquecer o que aprendi com ele, ele que me ensinou o que é amar. Porque muito pior que uma doença é viver sem conhecer esse amor, ou pior ainda: é seguir achando que sabemos o que é amar de verdade.  

E ele o fez sem o menor esforço. Me amou. Nada esperou. Nunca pediu ou reivindicou. Somente uma vez me julgou. Uma. Em quatro anos. Coisa boba. Em cada outra vez, de todas elas, ele humildemente se doou, me apoiou. Dia e noite, ele só me presenteou. E sorria por isso.

"Você que sabe", "Qual você prefere", "Do que você está com vontade" são práticas do amor por alguém que el praticou por mim, para mim. E eu não entendi. Julguei, critiquei, mais uma vez, o cobrei. Eu pedi que ele não pensasse em mim, que decidisse por ele. Essa é a confirmação de quem definitivamente não entende nada sobre o que é amar alguém.  

Amar é só presentear e ser feliz por isso. Amar é curtir ele ser a pessoa "errada". Eu não consegui. Ele foi completo, ele foi mais, ele amou. Eu fui apenas eu.

Graças a ele, tempos depois, hoje eu sei como seria amar. E mesmo que eu não tenha a chance de um dia oferecer este amor, eu sou diariamente grato por ter tido um maravilhoso professor.


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quarta-feira, 11 de julho de 2018

Quem diria, hein, Martha?


Em 2008 ouvi e li Martha Medeiros pela primeira vez. Fomos apresentados – somente ela a mim, claro – pela internet quando rolaram as notícias sobre a adaptação de seu livro “Divã” aos cinemas – lançado em 2009. Depois de experimentar alguns de seus textos, esbarrei na coletânea de crônicas “Doidas e Santas” (2008). Folheei. Comprei. Devorei.

De lá para cá, minha relação com a autora é essa: a cada lançamento, um novo momento entre a gente. Nunca estive em terapia – não que eu não precise, tá? – mas essa lindaça funciona como tal para mim. Me faz pensar. Me faz bem demais. 

A cada crônica, Martha nos oferece aprendizado, leveza e intensidade sobre seus gostos e irritações, sua vida e seu olhar sobre o alheio.

Acabo de ler sua mais recente coletânea, “Quem diria que viver ia dar nisso”, com textos de 2016 e 2017, originalmente publicados em suas colunas nos jornais Zero Hora e O Globo. O mais gostoso destes dez anos de leitura é ver o quanto seus assuntos mudam, amadurecem, enquanto ela não perde sua abertura para novas experiências, porém, sempre fiel à sua essência.

Desde “Simples Assim” (2015), é possível ver a autora escrevendo sobre coisas “menos gostosas”, como política, religião e noticiário. Ela assume sua falta de graça pela coisa, mas não se nega a falar do que é relevante quando o assunto é o comportamento dessa raça que por vezes acerta e – muitas outras vezes – erra.

Eu gosto da Martha que fala sobre amor, sobre relacionamento, sobre convenções e esquisitices inventadas pelas pessoas, com seu olhar aberto, sereno e experiente por conviver demais, se expor de menos e viajar em si e por aí. Amo a coletânea dos anos 90, “Non Stop”, publicada em 2000, com o meu texto favorito dela: “Amor e perseguição”.

Há muito dessa Martha mais “experimental” por lá. Depois fico com “Coisas da Vida” (2005), “Feliz por Nada” (2011) e “A Graça da Coisa” (2013).

Dos seus romances, “Fora de Mim” é um inacreditável passeio em diferentes tipos de relacionamentos e o que viver cada um deles desperta em uma mesma pessoa.

Essa publicitária que se libertou para a escrita está sempre no Caneca, veja outros posts aqui.

Desta última leitura, separei as minhas duas crônicas favoritas para compartilhar com vocês. Martha Medeiros me inspira, me melhora.



A pessoa certa

Algumas frases se propagam sem que saibamos quem é o verdadeiro autor. É o caso de "Enquanto não surge o homem certo, vou me divertindo com os errados", que eu ouvi pela primeira vez num programa da Marilia Gabriela – ou será que li numa camiseta? Que a frase é espirituosa, nem se discute, mas é uma cilada: acreditar que existe a pessoa certa é a razão dos nossos problemas de relacionamento. Por que a gente insiste em acreditar em lendas?

Essa entidade abstrata – a pessoa certa – é aquela que vai entender todas as suas manias, vai adivinhar quando você quiser ficar em silêncio, terá o corpo e a rosto que você idealizou em seus delírios românticos e a sua mãe – a sua, não dela – vai aprovar sua escolha assim que abrir a porta da sala de visita. Bastará uma rastreada com o olhar e logo ela piscará pra você como quem diz: agora sim.

Agora sim o quê? Agora você pensa que encontrou alguém com quem não irá brigar jamais e que vai ser encaixar com perfeição na sua ambiciosa procura pela pessoa certa, esta que (atenção, spoiler) não existe.

A pessoa certa pra você é a errada. Lembra da pessoa errada?

Morava no cafundó do Judas. Ria alto. Não entendia muito os filmes de que você gostava, mas fazia comentários deliciosos a respeito. Era muito mais velha que você. Ou muito mais jovem que você. Não parava em emprego algum e sua coleção de ex era preocupante. Que saudade da pessoa errada.

Nunca acertou um único presente – mas lembrava de todas as datas. Depois de uma hora e meia ao telefone, queria falar um pouco mais e ficava triste se você sugeria que desligassem. Como amava você a pessoa errada.

Não conhecia nenhum de seus amigos. Nem você os dela. Fumava demais. Ou bebia demais. Ou ambos. Mas nunca teve passagem pela polícia. A fissura por previsões astrológicas era meio exagerada, e já estava na hora de aprender a arrumar a bagunça que era seu apartamento, mas nunca deixou de sair do banho perfumada. E molhando o chão do quarto, claro. Era a incorreção mais bem-vinda para aquele seu momento de entressafra, não era?

Até que surgiu a pessoa certa. Toda a família comemorou e os amigos respiraram aliviados: agora sim, você tinha alguém a sua altura, agora sim, você não precisaria mais passar por altos e baixos, agora sim, nunca mais um barraco, nenhuma surpresa. Agora sim, um casal padrão.

Quase posso ver você, daqui a uns meses, usando uma camiseta que diz: "Enquanto não surge a pessoa errada, vou me entediando com as certinhas".

4 de março de 2017



Tem homem no mercado

Aconteceu há algum tempo no Rio. Uma mulher colocou um anúncio classificado no jornal em busca de um homem que fosse disponível, hétero e que ganhasse ao menos dois mil reais por mês. Se era piada, funcionou, porque gerou boas gargalhadas. Esta "mulher solteira procura" não reivindicou honestidade, inteligência, bom humor ou conhecimento geral – resumiu-se ao básico do básico. Que o "produto" não tivesse compromisso com ninguém, que gostasse de mulher e pagasse suas próprias contas.

O que significa que o que sobra por aí é justamente o oposto. A comunidade gay só aumenta. Se o candidato for surpreendentemente hétero, é provável que tenha alguma namorada escondida na manga. E se for hétero, livre e desimpedido, maravilha – mas talvez não tenha grana nem para um pastel de vento, vai encarar?

Vai.

Porque o que mais se propaga por aí é a frase "Não tem homem no mercado", e a mulherada que, como se sabe, não faz outra coisa na vida a não ser se dedicar às pesquisas no súper, se apavora e acaba aceitando qualquer promoção. Homem duro? Serve. Homem casado? Serve. Homem que mora com a mãe aos 45 anos? Serve. Sendo homem, serve.

Até que o cenário piora: é bandido? Serve. Desrespeita você? Serve. Bate em você? Serve.

Aí a mulher morre nas mãos desse delinquente e ninguém entende.
Vamos dar um rewind? Começando por parar de divulgar essa ameaça boba de que não tem homem no mercado. Tem, sim. Tem um monte de homem solteiro, separado e viúvo que sonha em encontrar uma mulher madura, companheira e independente. É verdade que há mais mulheres no mundo do que homens, a vantagem é deles, mas apostar no desabastecimento das gôndolas é o caminho mais curto para fazer bobagem. Você acaba se contentando com o que sobrou no fundo da prateleira, já com o prazo de validade vencido.

Quando vemos um homem sem mulher, pensamos: é porque ele não quer uma.

Quando vemos uma mulher sem homem, pensamos: é porque nenhum deles a quis.

Se insistirmos nessa mentalidade medieval, continuaremos propensas a aceitar qualquer carne de pescoço que se passe por filé. Não há por aí quem diga que somos especialistas em detectar os desajustes de ofertas? Então, vamos tratar de pesquisar bem e levar coisa melhor pra casa.

18 de março de 2017



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terça-feira, 26 de junho de 2018

Appelamor





Eu quase fui e não voltei. Comecei a me perder e, graças à noção que me resta, não cheguei muito longe da porta que entrei: a dos Apps de relacionamento.

A Apporta que pode nos deixar Apperdidos. A experiência que tive... AppelamordeDeus.

Para os homens gays afim de pegação, sexo sem compromisso e troca de nudes, os dois principais aplicativos são Hornet e Grindr. Alguns toques em fotos e poucas perguntas – como, “de onde é?” e “o que curte (no sexo)?” – e o próximo passo é rumo à cama, ao sofá ou algum beco abandonado – porque, sim, tem de tudo. Appelação!

Esses dois Apps já não são a minha há tempos. Há seis meses solteiro, foi a vez de experimentar os outros dois vistos como mais “promissores” quando o assunto é conhecer pessoas: Tinder e Happn . Appara!

Baixei o Tinder. Configurei para o alcance de até 110 km de distância – imaginando que, se valesse o esforço, uma horinha de carro poderia resultar em uma boa conversar acompanhada de uma bela e gelada cerveja. Preferência, homens. Idade: dos 25 aos 40 – porque mais novo que isso está difícil de acompanhar e mais velho que isso está impossível de se animar.

Coloquei minhas três fotinhos, bonitinho. Idade, 31. Descrição: jornalista e o meu trabalho – sem paciência para me descrever para pessoas que não têm paciência para me ler. Tudo certo. Play no App!

Na tela, foto, idade e descrição de caras de todos os tipos. Desliza para a esquerda para dizer Não, para a esquerda, Sim. Fui desenfreado para a esquerda... Nope, nope, NOPE!

Dos poucos que receberam sinal verde, dois responderam as mensagens no chat que é liberado quando rola o match! – o restante eu prefiro acreditar que sofreram derrames em vez de ter lido o meu “Oi” e simplesmente seguido a vida sem me responder – mesmo tendo “me curtido” nos coraçõezinhos distribuídos. Appraquê?

Depois de dois encontros em bares e algumas pessoas no meu WhatApp, em duas semanas, zerei o aplicativo. De repente a minha foto aparece no centro da tela em que estariam os pretendentes e um círculo, como um radar, cresce em torno dela para localizar alguém que eu ainda não tenha passado pelo perfil. Ninguém. Mensagem: “Não há ninguém perto de você. Expandir suas configurações de busca para ver mais pessoas”. Apporfavor! Não, obrigado.


Nem que eu expandisse o alcance de pessoas até o Haiti, daria certo. Appelei e deletei.

Com o Happn, o mesmo. Só que durou menos. Até porque neste aplicativo você deve passar, fisicamente, a certa distância das pessoas para que elas apareçam para a sua avalição com xis, para negar o interesse, ou coração. Minha paciência durou quatro dias. Muda o App, continuam as pessoas. Papo padrão e a maioria nem aparece para retornar as mensagens, mesmo quando o “Oi” venha do lado de lá.

Appor que baixei? Queria conhecer gente. Gente interessante de preferência. Para amizade, sexo ou namoro, ter novas e boas experiências. Apperdadetempo.

Foi a época em que eu ia para baladas para transar bêbado depois das cinco da manhã. Escolhi por conversar mais com as pessoas, conhecer melhor, nos vermos e ver o que bate. Até fiz um e outro amigo colorido neste tempo. Amizade e sexo. Apperfeito!

Mas as coisas mudam. O interesse pode passar. A paixão pode surgir de um dos lados. E nada feito. Nem amizade nem sexo.

No momento, fico com meus barzinhos e amigos e cinema e minha casa. Escolho a Appaquera olho no olho. Descobri que eu Apprefiro.



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segunda-feira, 11 de junho de 2018

Paixão e opção




Apaixonar-se é uma questão de estar disposto ou algo que simplesmente acontece sem termos controle algum? Eu fico com a primeira teoria.

Sou louco pelo mundo fantástico de Walt Disney, mas, quando o assunto é o que eu deixo ou não acontecer com meus sentimentos, sou um tanto Wall Street.

Para mim só se apaixona quem está, no mínimo, aberto a isso. Das conversas de bar ao café no trabalho até as ferramentas digitais, lancei a pergunta.

No Instagram, usei da fofa possibilidade de enquete em um story. O resultado me impressionou demais: meio a meio. 50% disseram que se apaixonar está relacionado à predisposição e a outra metade acredita que é algo que não temos controle. Ao ver quem respondeu o que, deu de tudo. Casados, namorados e solteiros nos dois lados do muro.

Por quê?

Eu arrisco dizer que está diretamente relacionado às experiências que tivemos e, principalmente, ao momento de vida em que estamos.

Me explico.

Se nos relacionamentos anteriores nos apaixonamos acreditando que simplesmente aconteceu, vamos afirmar que assim será todas as vezes. Isso independentemente de estar em uma relação ou não neste momento. Para quem não está, esses solteiros garantem que apaixonar-se é algo sem controle. Mas o ponto é: algum deles é capaz de jurar que não gostaria de estar apaixonado? Ou seja, predisposição.

O tira-a-teima vem com quem está solteiro e, definitivamente, não está afim de se ver apaixonado. #NãoQuero #NãoPosso. Essa racionalização dificulta a abertura para que algo aconteça, mesmo ao conhecermos um perfil sensacional em educação, inteligência, humor, beleza, companheirismo, maturidade e quentura no sexo.

Um colega respondeu à pergunta com um excelente exemplo: “Se sou gay e tenho um conhecido hétero que me chama atenção, imediatamente sei que eu jamais poderia me apaixonar por ele pois sei que não vai dar em nada”.

Bang!

Se alguém está em um relacionamento e então se apaixona por outra pessoa: inocente ou culpado?

Para avaliação do júri: este ser não poderia fazer nada para evitar cair de joelhos por outro (portanto, inocente, sem controle) ou vive um relacionamento enquanto fica de olho em como seria a vida com outra pessoa, imaginando uma nova experiência (culpado, predisposto)?

A discussão renderia mais de mil textos. 

O que digo é que posso falar por mim que, aos poucos, saio do “Não quero” e “Não posso” me apaixonar para um controlável e previsível “Talvez eu queira” e “Quem sabe eu permita” desde que nada deixe de ser uma questão de opção: a minha, inclusive neste Dia dos Namorados. Feliz escolha para alguns. Feliz descontrole para outros. 


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