segunda-feira, 11 de junho de 2018

Paixão e opção




Apaixonar-se é uma questão de estar disposto ou algo que simplesmente acontece sem termos controle algum? Eu fico com a primeira teoria.

Sou louco pelo mundo fantástico de Walt Disney, mas, quando o assunto é o que eu deixo ou não acontecer com meus sentimentos, sou um tanto Wall Street.

Para mim só se apaixona quem está, no mínimo, aberto a isso. Das conversas de bar ao café no trabalho até as ferramentas digitais, lancei a pergunta.

No Instagram, usei da fofa possibilidade de enquete em um story. O resultado me impressionou demais: meio a meio. 50% disseram que se apaixonar está relacionado à predisposição e a outra metade acredita que é algo que não temos controle. Ao ver quem respondeu o que, deu de tudo. Casados, namorados e solteiros nos dois lados do muro.

Por quê?

Eu arrisco dizer que está diretamente relacionado às experiências que tivemos e, principalmente, ao momento de vida em que estamos.

Me explico.

Se nos relacionamentos anteriores nos apaixonamos acreditando que simplesmente aconteceu, vamos afirmar que assim será todas as vezes. Isso independentemente de estar em uma relação ou não neste momento. Para quem não está, esses solteiros garantem que apaixonar-se é algo sem controle. Mas o ponto é: algum deles é capaz de jurar que não gostaria de estar apaixonado? Ou seja, predisposição.

O tira-a-teima vem com quem está solteiro e, definitivamente, não está afim de se ver apaixonado. #NãoQuero #NãoPosso. Essa racionalização dificulta a abertura para que algo aconteça, mesmo ao conhecermos um perfil sensacional em educação, inteligência, humor, beleza, companheirismo, maturidade e quentura no sexo.

Um colega respondeu à pergunta com um excelente exemplo: “Se sou gay e tenho um conhecido hétero que me chama atenção, imediatamente sei que eu jamais poderia me apaixonar por ele pois sei que não vai dar em nada”.

Bang!

Se alguém está em um relacionamento e então se apaixona por outra pessoa: inocente ou culpado?

Para avaliação do júri: este ser não poderia fazer nada para evitar cair de joelhos por outro (portanto, inocente, sem controle) ou vive um relacionamento enquanto fica de olho em como seria a vida com outra pessoa, imaginando uma nova experiência (culpado, predisposto)?

A discussão renderia mais de mil textos. 

O que digo é que posso falar por mim que, aos poucos, saio do “Não quero” e “Não posso” me apaixonar para um controlável e previsível “Talvez eu queira” e “Quem sabe eu permita” desde que nada deixe de ser uma questão de opção: a minha, inclusive neste Dia dos Namorados. Feliz escolha para alguns. Feliz descontrole para outros. 


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terça-feira, 5 de junho de 2018

"Amor e perseguição"



Crônica publicada no livro-coletânea Non Stop.


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segunda-feira, 28 de maio de 2018

Dia dos Ex-Namorados



A cada novo Dia dos Namorados, ganhamos de presente um novo ano de distância dos nossos ex-namorados, ex-namoradas, ex-esposas e ex-maridos. Alguns os colocam no passado. Outros dão como mortos. In memorian. É quase assunto para ser lembrado em Dia de Finados.

Há quem comente a existência do ex com os amigos, mas coloca uma pedra em cima. Outros dizem ter consideração pela história passada, mas se encontrar o Fulano ou a Beltrana na rua, atravessam para o lado contrário sem olhar na cara.

Eu gostaria que de tempos em tempos também fosse Dia dos Ex-Namorados. Assim como a experiência atual deve ser bem cuidada, a anterior deve ser reconhecida. Uma coisa leva à outra. Só o seu passado te dá um pouco de aprendizado para o atual presente a dois ou a um – ou a vários, né?

O que acontece é que enquanto vemos o relacionamento anterior como uma história com começo, meio e fim, nos colocamos como se tivéssemos vivido em um livro que nada tem a ver com quem somos hoje. Jogado no sótão. No quartinho da bagunça para nunca ser revisto. Quando não, doado ou até queimado junto às fotos do ex-casal.

Em vez de uma publicação completamente separada, eu proponho o conhecido Capítulo de uma história que há muito o que se escrever e a se ler ainda: as nossas vidas. Um livro com o mesmo personagem principal, independentemente da troca de personagens coadjuvantes: você, o protagonista.

Para este Dia dos Namorados, eu quero de presente um ex-namorado - pausa para o choque e para quem precisa voltar e ler de novo.

Sim, eu troco jantar, presente caro, cineminha, viagem e motel por uma saudável e madura troca de mensagens que não vá além de um “Oi. Tudo bem? Como estão as coisas? Nosso sentimento mudou, eu tenho outra pessoa, estou sendo feliz com tudo o que tenho recebido da vida e quero que saiba que desejo o mesmo para você, que hoje vejo com carinho tudo o que vivemos naquela fase”. Pronto. 

“Ah, Matheus Farizatto, você diz isso porque não está namorando!”. Não estou namorando e, enquanto estive, teria dado, sim, um “Oi” para um ex ou uma ex – sim, longa história, já namorei homem e mulher, mas continuo não gostando de gatos. Aliás, com uma delas tenho isso de um jeito muito legal, nessa dose, “Feliz Aniversário!” e “Como estão as coisas, Ma? E seus pais?”. Sorte a minha.

Alguns especialistas em serem especialistas somente no que acham que são especialistas vão dizer que isso é amor mal resolvido, paixão enrustida. Não é.

Eu não falo de amizade com ex, de tomar cerveja junto toda semana e frequentar a casa um do outro no Natal. O meu ponto é simplesmente não ter que fingir que nunca aconteceu algo, reconhecer que é parte de quem somos hoje, que estamos na mesma cidade. Não ter que evitar uma troca de mensagem depois de meses, depois de anos daquele capítulo concluído juntos. Não ter que usar bloqueios em todas as redes sociais e aplicativos para garantir que o outro não exista. Eu definitivamente acho isso muito, muito triste. São pessoas com quem dividimos nossas vidas durante um período, envolvemos nossas famílias, dormimos juntos.

Há quem não tenha afinidade nem para um “Olá” ao ex. Tudo bem, eu entendo. Há também quem traumatizou de um tanto que faz mandinga todos os dias para que o fofo ou a fofa seja atropelado. Vamos respeitar o ranço de cada um. Mas, ainda assim, eu gostaria que, com o tempo, até isso passasse e ficasse a consideração pelo algo bom.

Para mim, o mal resolvido é justamente evitar, não falar, atravessar a rua, ignorar, não lembrar nem comentar quando surge um novo alguém. Soa insano. É fora do racional.

Será isso? Não conseguir ser racional? Pois olha, se você ainda não consegue racionalizar a sua emoção quando se trata de um antigo amor, é melhor você rever a sua companhia para esse Dia dos Namorados. Você pode descobrir que, mais do que eu, você precisa de um belo Dia de Ex-Namorado, com direito a presente, depois jantar e... Você sabe o que mais.


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segunda-feira, 7 de maio de 2018

Beijo amanhecido




Uma das coisas mais íntimas entre duas pessoas é o delicioso beijo na nuca. Na chegada a um motel, para dar o clima enquanto ajeita-se a chave do carro e a carteira sobre a mesa. Ao saírem de casa para uma noite na companhia de amigos. Aquele beijo surpresa em um lugar completamente fora de clima, como em um supermercado, enquanto um empurra o carrinho e o outro chega sem avisar, se aproximando da nuca, e...

Ao se aconchegar para dormir abraçado, de conchinha, então o beijo na nuca é quase um pedido de permissão para o abraço junto a um desejo de “Durma bem”. Até a hora de lavar a louça muda de cara com um beijo na nuca, com ou sem um belo abraço por trás, que se torne ou não o começo de uma transa sem hora marcada. É especial.

Beijo na nuca é intimidade não importa há quanto tempo se conhece a pessoa. Dá-lo e recebê-lo pede carinho, uma atenção, uma vontade além do convencional. Não falo de mordidas e lambidas, mas daquele beijo em que se coloca os dois lábios, nada seco, nem melado. O beijo na nuca é sempre quente.

Assim como as mãos dadas no cinema, o beijo na nuca é obrigatório em momentos quando não fazemos nada por obrigação.

Outro beijo que desafia as convenções, oficializações, rótulos, fachadas e as rasas pegações de uma só noite é o beijo amanhecido. Aquele que muitos farão cara feia ao imaginarem, mas falo daquele beijo dado logo após uma noite de sono juntos, sem neurose, sem pensar em hálito, permissões ou estética. Nada de formalidades. Língua na língua. Muito lábio. Beijo dado por desejo, não tarefa.

Acordar e sentir o outro ao seu lado. Se ajeitar e voltar a dormir. Abraçar e depois se virar para a parede. Ir ao banheiro, voltar, cochilar mais um pouco. Então é o outro quem vai ao banheiro para logo voltar a se deitar. De repente, os dois se abraçam. Beijos no pescoço e na bochecha e na boca.

Beijo amanhecido é surpresa esperada porque é preciso o ápice da vontade de beijar o outro. Só rola e é gostoso porque os dois querem. Porque querem muito. Porque a pele, o corpo sobre o outro, o cheiro natural de vocês juntos não te deixa pensar. É o tesão falando mais alto. A vontade de duas pessoas que são íntimas o suficiente para curtir o beijo do sexo pela manhã, quando estamos mais sensíveis.

Beijo amanhecido não cabe em casamento que pede divisão de contas e rituais como escovar sempre os dentes assim que se acorda. É beijo que também não rola com a pessoa que se conhece na balada seguida pelo sexo da ressaca. Não é beijo de um dia só nem de todo dia. É beijo raro de rolar, impecável ao se gostar.

Quem curte beijo amanhecido sabe se deixar levar sem pensar onde os dois vão parar. Nem pensam em que momento a vida vai azedar. Porque uma hora ela cheira mal e não há bala de menta que nos tire o gosto ruim da boca quando acontece. Até passar. Mas nem tudo acontece duas vezes.

Enquanto isso, eu quero receber um beijo amanhecido. Mais até que o beijo na nuca que fica até meio bobo perto da intensidade do outro.

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sexta-feira, 13 de abril de 2018

Bem aqui



Se fim de relacionamento é difícil para os dois, a coisa aperta um pouco mais para quem fica onde já foi – mais que a casa – o plano para uma vida inteira a dois.

Mais que em qualquer religião, eu acredito na Lei do Retorno e no quanto ela vem no momento exato para que a gente aprenda o que é preciso. Em meu R1 – vamos chamar assim o meu primeiro relacionamento com um cara, não que o nome dele comece com R, de jeito nenhum – moramos juntos em seu apartamento. Eu saí. Ele ficou. Só imagino o que rolou por lá depois disso. Ainda mais agora que vivo essa experiência com o fim do meu R2 – vamos chamar assim o meu segundo relacionamento com um cara, não que o nome dele comece com R, nada a ver.

Há alguns meses solteiro, o término desta vez veio depois de quatro anos de namoro com algumas idas e vindas e então quase doze meses morando juntos e – eu mal consigo escrever esse título – noivos.

Definindo noivos – Sim, pacote completo. Aliança dourada no dedo depois de um pedido de casamento durante uma viagem com direito a ajoelhar-se durante o jantar e a dizer o meu nome completo seguido pela pergunta “Você quer casar comigo?”, que eu respondi com um sincero “Claro que sim!”.

O casamento seria no primeiro semestre do próximo ano. Não vai acontecer. Ele se foi. Eu fiquei. Lei do Retorno, lembra? R1 seguiu sozinho naquele apartamento anos atrás. Então chegou a minha vez no apartamento atual.

Durmo sem ele. Acordo sem ele. Chego em casa e cadê ele? Gavetas e armário vazios durante semanas. Buracos na decoração da sala montada a gosto dos dois, agora capenga com a parte de apenas um.

Aos poucos, percebemos o que se foi e o que ficou. No sentimento e nas caixas. A necessidade da divisão de bens e o carinho em deixar coisas que ele fez questão de me presentear. Tristeza e afeto nos mesmos cômodos que abraçaram o companheirismo formado somente pelo amor. Cômodos com chão que agora pisam somente dois pés.

A uma cama de dois, o lugar mais aconchegante do relacionamento ao final do dia – fosse em tempos de risadas ou de implicâncias – passava a ser desconfortável. Por maior que fosse o meu cansaço, não apagava facilmente, não acordava plenamente.

Como em todas as horas da vida, nada melhor que o cuidado de quem realmente nos conhece. Não falo daqueles que aconselham o padrão, que soltam frases prontas ou que só falam de como foi quando aconteceu com eles mesmos, mas dos que pegam para fuçar naquilo que você não tem coragem nem de comentar. 

Minha mãe e minha irmã distribuíram as minhas roupas para ocupar todo o armário e repaginaram os objetos sobre o móvel da sala. Meus amigos ocuparam minha cabeça com cervejas e risadas. E boa comida. Muita. Todos acalmaram o meu coração, dando exemplos de como, cedo ou tarde, o descompasso daquele relacionamento viria.

A cantora Ariana Grande – antes de se vender ao pop das pistas – gravou a deliciosa “Right There” no início de sua carreira. Na música ela diz que “Você deveria saber que eu nunca vou mudar. Eu sempre vou ficar. Você me chama, eu vou estar estou bem ali... E se se você nunca mudar, eu vou estar bem ali”. A minha favorita da menina magrela de rabo de cavalo e vozeirão virou a minha nova mentira reconhecida. Quem nunca vai mudar?

Para mim, os dois grandes lances de todo relacionamento duradouro são: sempre ter novos planos juntos e saberem mudar em sintonia.

Mudaremos sempre. Quem não muda, desinteressa. Pelo menos a mim. E quando somente um muda, pode ser que o outro não se encaixe. Nem precisa. Tudo deve ser natural, sincero, parte da essência de cada um. Mas se não rolar, o descompasso virá.

Se os dois mudarem, a afinidade pode ser extrema ou o próprio desastre instalado. Depende da mudança e, principalmente, do ritmo dos passos dos dois.

Da melodia de Ariana Grande para a acidez de Arnaldo Jabor, o escritor diz que “Os casamentos convencionais só se sustentam por causa da religião ou da infidelidade”. E eu só concordo. Tenho duas formações, em R1 e R2, além de dezenas de confissões de amigos e amigas casados. Triste para os românticos. Um conforto para os sinceros consigo mesmos.

Poderia ter passado a vida toda com o R1. Ou ainda estar a caminho do cartório com o R2. Bastava relevar. Entristecer enquanto dobraria a quantidade de fotos no estilo Felizes para Sempre em todas as redes sociais. Ou procurar me preencher com o compromisso assumido com Deus. Ou o descompromisso de ficar com outras pessoas enquanto continuaria dizendo ser fiel àquela mesma.

No lugar disso, estou bem aqui. Com os espaços a dois ocupados com a nova vida deste um. A cama ganhou nova roupa e mais travesseiros para voltar a ser aconchegante. Agora de uma nova forma.
  

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segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

Fase de Terminalidade



O cara foi internado no ano passado. Câncer. Nem sei onde. É tanta gente tendo câncer em tanto lugar que prefiro não guardar. É amigo de uma amiga. A mesma amiga que me contou que a última notícia do médico para a família, depois de precisar interná-lo outra vez, é que o paciente entrou em Fase de Terminalidade.

Enquanto o elevador descia e eu olhava para ela pensando "Isso quer dizer que"... Eu nem precisei perguntar por que. Logo ela soltou um "Ou seja...". Antes mesmo de a porta do elevador fechar.

Câncer aparece. Desaparece. Volta. Ou não. Mas a situação me colocou para pensar na tal Fase de Terminalidade e o quanto é importante reconhecermos quando ela chega para saber que o que ou quem está ali, daqui a pouco não vai estar mais.

Na Medicina, a fase é quando o médico avalia que não há mais cura, não adianta mais remediar. Tratamento nenhuma vai livrar do fim. É o anúncio de que, como toda fase, esta também passa, mas depois dela, a única opção é término.

Na vida, não se tratando de saúde, a Fase de Terminalidade pode ser prevista, mas é difícil diagnosticar sem a ajuda de um bom entendedor para nos dar a notícia.

Saber o que vem logo ali pode desesperar, mas, principalmente, confortar. O amigo da minha amiga agora sabe pelo o que continuar por este período, o que dizer e com o que não se importar.

Do médico para um diretor de empresa, o chefe pode saber que o funcionário que logo será demitido, que entrou em Fase de Terminalidade para aquela corporação. Não rende mais. Vão reduzir os custos. Vamos contratar outro pela metade do salário ou simplesmente o rumo da companhia mudou e aquele colaborador não se encaixa mais.

Difícil anunciar A Fase para a vítima neste caso, pois só Deus sabe qual pode ser a reação daquele empregado. Diferente do médico, o diretor guarda o diagnóstico para si até que, por orientação da empresa, ele possa anunciar a morte imediata daquele contratado.

Seria melhor saber? Se preparar? Alguém dizer ou nós mesmos interpretarmos os resultados deste tipo de exame?

Nos relacionamentos, a Fase de Terminalidade muitas vezes não precisa de consultoria. Está ali, na tela, às vistas, no sentimento, na respiração que, bem aos poucos, muda.

Mais fácil que acessar resultados de exames pela internet é saber o quanto aquela vida a dois te mantém saudável ou te condena com o passar do tempo.

Mas se médico é quem é preparado para dar notícia ruim, quem nos treinou para anunciar a Terminalidade de um relacionamento?

O melhor é quando se chega ao resultado a dois. Um diagnóstico quase impossível de ser feito porque há sempre algo escondido que, como uma metástase, pode se espalhar e ser incurável com o passar dos dias.

Porém, dizem que a fé cura tudo. Quem é o tal doutor para decidir suspender o tratamento? E se ainda houvesse jeito? Uma outra alternativa? Uma dose de amor que não daria para ser prescrita?

Naquele casamento de brigas constantes, que já criou resistência aos antibióticos, qual é o momento de procurar a cura em outra pessoa? Ou descobrir a terapia de curar a si mesmo sem pedir receita ou se entregar para paliativos alheios.

Será que insistir mais um pouco no mesmo remédio uma hora pode ter efeito diferente? Afinal, a gente muda o tempo todo.

Prefiro eu mesmo anunciar para o meu coração o início da Fase de Terminalidade para então saber que não adianta continuar com os tratamentos. O que há para ser tentado foi feito antes. Os remédios não deram resultado. Muitas vezes, alguns pacientes simplesmente não reagem.

É aí que a Terminalidade chega e conforta. Vem e cumpre o seu principal papel: terminar. Ela é a certeza que ninguém precisa acreditar. Apenas entender que, assim como ela cumpre o seu papel de diagnosticar, cabe a gente a consciência para recomeçar.


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quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

Meu mais ou menos eu



O melhor de se aproximar dos 31 anos é não percebê-los chegando logo ali. Adoro o meu aniversário, bem colado ao Natal. Dá um clima, sabe? Sinto isso desde sempre. Mas desde há pouco, gosto ainda mais por ser uma coisa minha, o meu tempo, aprendizado, minha experiência e, acima de tudo, a comemoração do meu olhar sobre as coisas. Um pouco menos para fora. Uma importância a mais para mim e para quem eu me torno a cada ano.

Vou comemorar a chegada da nova fase com meus pais, namorado, irmã e cunhado. O suficiente. Os maravilhosos outros familiares e excelentes poucos amigos, assim como esse grupinho de abertura, estão comigo ao longo do ano todo. E não vivo sem. Mas os vivo diferente com o passar do tempo. Menos oba-oba, mas fundamental.

Perguntei no Instagram – mais uma das redes em que posto cada vez menos – “Ansiedade: melhor com ou melhor sem?”. Pouco mais de setenta por cento disseram que preferem viver de forma ansiosa. Eu estou no grupo dos pouco menos de vinte por cento que preferem a calmaria. Questão de perfil, de experiências e, consequentemente, de momento de vida. Só acho. Nada imposto por lei.

E não confunda essa temperatura morna com a inexistência do calor, afinal, eu sou meu maior motivador e minha essência morreria sem entusiasmo, meu futuro não existiria sem meus sonhos, sem planos, os meus anseios sem a tal ansiedade.

O meu ponto é: manter o equilíbrio. Exercício diário, coisinha que tem me dado um barato. Tenho amado isso! – e aqui fica uma exclamação, de coração.

A mesma ansiedade que causa animação, causa desconforto, em mim e nos outros, pois – outra coisa que aprendi bem perto de trintar – as pessoas ouvem interessadas as nossas alegrias e tristezas... Interessadas em mostrar as delas mesmas ou em usar aquilo que dissemos também em favor delas mesmas. Algumas vezes para o bem, sim, mas quase sempre... Bom, você deve saber. Ou, se souber olhar com maturidade, um dia saberá. Pena de quem fica sem entender.

Acontece que entrei no meu próprio mundo invertido: fico mais feliz com a realização do que com a expectativa. A chama que existe neste capricorniano que não lê o horóscopo e nada religioso – porém de oração diária – é algo cultivado somente por ele. Como se queimasse em uma redoma que somente ele sabe onde fica.

O que as pessoas veem da gente é aquilo que elas pensam que sabem. No mesmo dia, uma a amiga me chamou de pilhado e a outra de pleno. Duas letras P bem diferentes para este letra M aqui.

Sobre esse olhar do outro, quando não conhecemos a rara empatia, ela pode parecer a comum apatia. Eu me incluo nessa confusão. Levei um bom tempo para começar a praticar.

Mas enquanto essa minha turma não aumenta, sigo o exercício, firmo nessa que me permite sentir-me melhor para lidar com tanto desiquilíbrio e excesso ao redor.

Pode ser que um dia essa minha reflexão soe tosca para mim mesmo enquanto já parece sem noção para todos os outros, mas, ao entrar de vez na casa dos trinta, observo com atenção, ouvindo mais, expondo menos e, naturalmente, para a maioria, parecendo cada vez mais bobo. Bem bobo.


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segunda-feira, 30 de outubro de 2017

Sedentário, eu?



Meu horário de entrada no trabalho é sete e meia da manhã. Imaginar que alguém faz exercício antes disso está muito longe da minha capacidade criativa. A pessoa que cuida da saúde malhando às seis da madrugada depois de acordar às cinco e ainda me conta está, automaticamente, destruindo (agora me imagina gritando as próximas palavras) a minha (passou o meu grito) saúde.

Se eu chego à empresa e o elevador está desativado, eu vou para o segundo elevador do prédio e última chance de fugir dos dois andares, ou melhor, dos quatro lances de escadas – assim parece mais sacrifício. Geralmente o segundo nunca está desativado ou, se está em manutenção, não fica parado mais que dois minutos, afinal, é o meio de transporte que leva (aqui eu grito de novo) o dono (parei) da companhia para a sala dele. Então, é melhor estar funcionando. Sempre.

Mas se até elevador de patrão enguiça, fazer o quê. Eu, que mais que completar frase dos outros, já dou a minha resposta antes mesmo de a pessoa contar que eu termine a pergunta dela, jamais aguentaria esperar esses dois minutos. Vou de escada mesmo. Porque, além de eu não ter que esperar, não tenho que dizer “Bom dia” e ficar fingindo que sempre que estou no elevador olho para as paredes, teto e chão, para não ficar encarando as outras três pessoas que sobem comigo.

Se estou subindo as escadas e meu celular toca, já boto no silencioso e continuo a subida. Passado um lance de escada, se vejo que ainda está chamando, enfio no bolso. Se na penúltima sequência de degraus ainda estiverem insistindo em ouvir a minha voz, é capaz de eu desligá-lo porque aqui estão duas coisas que eu não consigo: fingir que não estou vendo a minha mãe ligar e atender e andar ao mesmo tempo. Imagina subir escada! Tenho uma parada.

Se estou andando em uma calçada sem desníveis e me celular toca, já começo a ofegar antes mesmo de atender. Atendo. Tomo ar. E “alô”. Daí para frente, sigo com perguntas curtas que me dão tempo de respirar enquanto a pessoa responde.

Se for a minha irmã quem ligou, melhor ainda. Eu solto um “Sei...”. E ela fala mais quatro minutos. Eu: “Jura?”. Lá se vão mais nove minutos de argumentação dela, o que me oferece a chance de dar passos rápidos enquanto inspiro pelo nariz e expiro pela boca. Tudo com o celular na minha orelha, porém com o microfone virado para o céu para não ouvirem minha respiração ofegante. Se me fazem uma pergunta enquanto, isso, tipo “você acredita que ela disse isso?”. Eu tomo fôlego e digo muito rapidamente: “não”.

É a falta de exercício. Mas eu não pago para fazer academia. Acho bobagem. E também não faço exercícios que não precisam pagar. Acho bobagem.

Pagar academia para mim é o mesmo que pagar para uma pessoa socar a sua cara enquanto outra dá joelhadas na sua barrida e outras quatro se dedicam à chutar as suas pernas e braços. Quem paga por isso, gente? “Ah, eu me sinto muito melhor depois”. Depois de qual parte?

Quando tentei fazer academia, me dediquei por quatro meses sem fugir à regra. Para não falarem que não tentei. Nesse tempo não teve uma vez que não pensei que fosse desmaiar, apagar, e – não “ou” porque a sensação era de tudo ao mesmo tempo - me borrar ali mesmo.

A coisa começa pelo horário. “Ok, vou direto do trabalho, assim eu embalo”. E aí come o que antes de se exercitar? “Um iogurte”, sugeria o mala do personal que vive daquilo. Gente, se eu tomo um iogurte e começo a correr naquela esteira, vai coalhada até na aula de spinning no andar de cima.

Daí, se eu como bastante, me dá aquela moleza. Se eu passo em casa antes só para trocar de roupa, meu sofá me dá muito mais tesão que o professor careca musculoso de canela fina e meias pretas quase nos joelhos.

Prefiro gastar com meus livros, cinema e cerveja e comida com minha família e amigos. Afinal de contas, em uma das vezes que senti a respiração curta demais enquanto eu caminhava e falava ao celular, pensei: “De hoje eu não passo. Vou morrer, mas vou morrer no ambulatório da firma”.

Corri para a enfermaria. Chegando lá o médico me perguntou “O que é que está pegando aí, cara?”, apontando para o meu peito – primeiro que, qual médico te chama de cara? Segundo que, como assim pegando? – Respondi, “Nada”. Ele insistiu que tinha algum chefe me enchendo ou prazo me tirando o sono. “Não. Nada mesmo”. Ele me receitou um calmante natural porque jurava que o meu problema era ansiedade. Ansioso, eu? Mal sabe ele.





   

terça-feira, 26 de setembro de 2017

Lasanha e café da manhã



Mais difícil que estar em um relacionamento bem sucedido é estar solteiro e bem resolvido. Tempos atrás eu diria que ser bem resolvido sem a companhia de alguém era colocar as mãos na cintura, lançar o seu olhar intimidador e dizer: eu me basto.

Rumo aos meus 31 anos e depois de um teste de internet que confirmou como sou adulto – mesmo que quem precise fazer esses testes já seja prova de que em nada são adultos em termos de maturidade – a vida me mostrou que se bastar por completo é o oposto de ser bem sucedido. Ninguém recebe sem haver a troca.

O melhor solteiro em tempos de aplicativos que oferecem de sexo fetichista até noivado no terceiro encontro é saber lidar com as opções.

Mais bacana que estar em um relacionamento de anos pode ser saber curtir aquele parceiro de uma noite, de um fim de semana, e sentir-se completo por isso. Via aplicativo ou não, as pessoas têm tudo para serem mais claras do que nunca quanto às suas vontades. Mas quem assina a liberação para sermos assim? Nós mesmos.

Se deixarmos de lado os joguinhos vintages “Não se Transa na Primeira Noite” e “Convidar para ir a uma Festa com Amigos é o Mesmo que Pedir em Casamento”, os solteiros podem viver o ápice das experiências com apenas alguns toques de seus dedinhos de unhas bem feitas para não fazer feio.

Uma amiga recém-chegada à solteirice conhece esse menu enquanto acha que não sabe mais o que responder para o paquera – ou melhor, para o crush, assim eu não pareço tão out - depois de tanto tempo em um relacionamento.

Em um de seus encontros que sobreviveram à troca de informações pré-formatadas como “onde mora”, “quantos anos tem” e “afim de quê”, conheceu um rapaz tão leve quanto ela, daqueles que não se importa se os dois estiverem mais pesados que os fitness (neuróticos, em tradução livre) soltos por aí.

Melhor que o convite para o bate-papo em um dos bares da moda, ele a chamou para uma noite em casa com lasanha e café da manhã.

Ai que carente. Ai que precoce. Ai, pula fora. Ai Deus te livre!

Ai que nada, gente. “Eu faço a lasanha para o jantar e você prepara o café de amanhã cedo”, propôs o fofo ao saber que ela não manja muito de panelas.

Tudo certo. Tudo resolvido. Com o simples convite, ninguém pediu ninguém em casamento nem disse que só queria trepar. Ao mesmo tempo que a proposta significa a vontade saudável de uma noite de sexo, conversa e o compromisso de um fazer pelo outro, mesmo que eles estejam apenas se conhecendo. É envolvimento na dose certa. Sem forçação de barra.

Esse é o ápice da vida de solteiro no Cardápio de 2017 para servir perfeitamente duas pessoas que estão dispostas a, mais que se conhecerem, curtirem algo juntos.

Garanto que o prato serve bem. Aliás, a sugestão é uma excelente escolha também para os casamentos que muitas vezes chegam ao divórcio por não saberem que um dos segredos de qualquer relacionamento é um preparar a lasanha enquanto o outro se compromete com o café. É o papo aberto para dar o apoio em vez de apontar o dedo para dizer que o outro não sabe cozinhar. Sabe o “eu lavo e você enxuga”? Pode anotar. Se no final a louça estiver limpa, todo relacionamento funciona.