terça-feira, 26 de setembro de 2017

Lasanha e café da manhã



Mais difícil que estar em um relacionamento bem sucedido é estar solteiro e bem resolvido. Tempos atrás eu diria que ser bem resolvido sem a companhia de alguém era colocar as mãos na cintura, lançar o seu olhar intimidador e dizer: eu me basto.

Rumo aos meus 31 anos e depois de um teste de internet que confirmou como sou adulto – mesmo que quem precise fazer esses testes já seja prova de que em nada são adultos em termos de maturidade – a vida me mostrou que se bastar por completo é o oposto de ser bem sucedido. Ninguém recebe sem haver a troca.

O melhor solteiro em tempos de aplicativos que oferecem de sexo fetichista até noivado no terceiro encontro é saber lidar com as opções.

Mais bacana que estar em um relacionamento de anos pode ser saber curtir aquele parceiro de uma noite, de um fim de semana, e sentir-se completo por isso. Via aplicativo ou não, as pessoas têm tudo para serem mais claras do que nunca quanto às suas vontades. Mas quem assina a liberação para sermos assim? Nós mesmos.

Se deixarmos de lado os joguinhos vintages “Não se Transa na Primeira Noite” e “Convidar para ir a uma Festa com Amigos é o Mesmo que Pedir em Casamento”, os solteiros podem viver o ápice das experiências com apenas alguns toques de seus dedinhos de unhas bem feitas para não fazer feio.

Uma amiga recém-chegada à solteirice conhece esse menu enquanto acha que não sabe mais o que responder para o paquera – ou melhor, para o crush, assim eu não pareço tão out - depois de tanto tempo em um relacionamento.

Em um de seus encontros que sobreviveram à troca de informações pré-formatadas como “onde mora”, “quantos anos tem” e “afim de quê”, conheceu um rapaz tão leve quanto ela, daqueles que não se importa se os dois estiverem mais pesados que os fitness (neuróticos, em tradução livre) soltos por aí.

Melhor que o convite para o bate-papo em um dos bares da moda, ele a chamou para uma noite em casa com lasanha e café da manhã.

Ai que carente. Ai que precoce. Ai, pula fora. Ai Deus te livre!

Ai que nada, gente. “Eu faço a lasanha para o jantar e você prepara o café de amanhã cedo”, propôs o fofo ao saber que ela não manja muito de panelas.

Tudo certo. Tudo resolvido. Com o simples convite, ninguém pediu ninguém em casamento nem disse que só queria trepar. Ao mesmo tempo que a proposta significa a vontade saudável de uma noite de sexo, conversa e o compromisso de um fazer pelo outro, mesmo que eles estejam apenas se conhecendo. É envolvimento na dose certa. Sem forçação de barra.

Esse é o ápice da vida de solteiro no Cardápio de 2017 para servir perfeitamente duas pessoas que estão dispostas a, mais que se conhecerem, curtirem algo juntos.

Garanto que o prato serve bem. Aliás, a sugestão é uma excelente escolha também para os casamentos que muitas vezes chegam ao divórcio por não saberem que um dos segredos de qualquer relacionamento é um preparar a lasanha enquanto o outro se compromete com o café. É o papo aberto para dar o apoio em vez de apontar o dedo para dizer que o outro não sabe cozinhar. Sabe o “eu lavo e você enxuga”? Pode anotar. Se no final a louça estiver limpa, todo relacionamento funciona.


segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Caneca na mão: “Por trás de seus olhos”



A janta em casa foi macarrão com molho de sardinha – que eu só adoro/amo. Mais simples impossível. Domingo à noite e eu já havia gastado a grana do fim de semana em um único passeio no sábado à noite – aliás, gastei a grana do segundo semestre de 2017 nesta “sentada” no bar com meu namorado, mas foi ótimo.

Macarrão é fácil, fácil de preparar e, ainda assim, me cortei com a faca. Mas não me julgo, eu estava transtornado. Na verdade, eu ainda estou transtornado e vou seguir assim até desencarnar.

Minha cabeça estava longe demais para entender que a cebola que eu segurava estava prestes a chegar ao fim na tábua de cortar enquanto a faca se aproximava da ponta do meu dedo. Meu pensamento no final do livro “Por trás de seus olhos”. Que sacada! Que horror. Como pode aquilo?

Da chegada à contracapa, eu voltei para o primeiro capítulo morrendo de sede de informação, de amarrar o que foi revelado no desfecho. Li novamente o início. Tudo para entender se era isso mesmo que acontecia desde o começo da história. Fiquei espantado.

“Por trás de seus olhos” é para se ler em looping. Somos levados pelo suspense da secretária que tem um caso com seu chefe enquanto a esposa dele a conhece por acaso e elas se tornam melhores amigas. Página depois de página, a tensão só aumenta.

Ao chegar aos últimos capítulos, começam os socos no estômago. O penúltimo trecho muda o foco: o murro vem direto na minha cara. E quando penso que vou voltar a respirar, o capítulo final me deu uma paulada na cabeça.

É aí que voltamos para o começo do livro que pode ser lido outra vez, na sequência, sem pausa para o lanche, agora por trás de um novo olhar.


Piração. Bizarro. Um horror delicioso. A autora se chama Sarah Pinborough. Publicado pela Intrinseca. Só recomendo.


quarta-feira, 30 de agosto de 2017

Um todinho de Rita Lee

Por que não conheci a Rita, antes? Talvez porque seu melhor momento seja o agora. Não falo da Rita conhecida por cantar a música do vampiro e a do perfume. Gosto de conhecer a Rita Lee de aqui. Ali, velhinha. Aposentada. Aquietada depois de uma vida de carinho e de porrada.

Falo da Rita que escreveu sua biografia e me surpreendeu não só pelas experiência e verdade maravilhosas, mas pela liberdade de quem erra e acerta lindamente - e escreve igualmente. Típico de quem sempre aprende.

Diz ela que escreveu a biografia assim, ao estilo senhorinha, devagar, nos intervalos entre brincar com seu pet e cuidar de seu jardim, digitando aos poucos em seu... Tablet. Conseguem imaginar? Me ganha.

Seu lançamento da vez é o livro “Dropz”, uma coletânea de contos que deve reunir mais toques em sua "tela de escrever" com análises sobre ela e criações de uma cabeça que só a dela. 

Ainda não o li. Mas mesmo que eu não leia de capa a capa, já me desmanchei com a leitura deste texto que compõe a publicação.

Feche os ouvidos. Pense na Rita jovem rebelde e na Rita idosinha de franjinha, grisalhinha, enquanto você lê cada uma dessas linhas.



Eis–me

Eis‑me aqui viva, mera mortal, filosofando sobre a vida, sobre Deus, sobre a crise mundial. Vem‑me à cabeça minha herança e lembro de mim criança, depois adolescente e assim como todos, carente. Muito antes que depois fui mutante, mulher e amante. Eis‑me aqui perdida no futuro do presente, neste mundinho esquisitão, sobrevivente da bobalização. Meio insatisfeita sou a sujeita do verbo ser star, estrela perdida no índigo do céu, pés no chão, cabeça na lua, coração ao leo. Homens não sabem como dizer adeus, mulheres não sabem quando. Posso resistir a tudo, menos à tentação, e descobri que sou quem eu estava esperando. Eis‑me aqui dia seguinte profissa, espreguiça, lava a cara, escova dente e cabelo, dá uma piscada pro espelho e parte pra rotina de dar bons‑dias. Trabalho como se não precisasse do dinheiro, danço como se ninguém estivesse me olhando e perdoo meus inimigos, nada os deixa mais putos. É uma pena que estupidez não cause dor. Eis‑me aqui caidaça no meio da naite, birinaite, cachaça, me levo pra casa depois de muito blá‑blá‑blá, chego e ainda como um resto de pizza com guaraná. Dou um suspiro, respiro, me inspiro e piro na maionese de mim mesma, esta lesma lerda que não sabe por que caiu, nem onde escorregou. Eis‑me aqui confusa, uma estúpida com raros momentos de lucidez, minha consciência limpa é sinal de memória fraca, um boato que entra pelo ouvido e sai por muitas bocas, depois eu é que sou louca. Tusso na frente de um fumante para ele se sentir culpado, depois queimo meu baseado na calada da noite, lá fora o frio é um açoite, então fecho os olhos, não se preocupe comigo, eu apenas estou morrendo. Ei‑me aqui odiando o amor, me abrace por favor, chego à conclusão de que talvez esteja errada, na esperança nada permanece, só a mudança. Estranhos são amigos esperando eu os encontrar, hay mucho que hacer, calo a boca e sorrio, seria engraçado se não tivesse acontecido comigo. Eis‑me aqui na mesmice, nunca vou perdoar as palavras que não disse, não tenho preconceito, neste mundo odeio tudo igualmente e quando não consigo convencer eu confundo, melhor te amar, se tenho medo da solidão melhor não me casar. Eis‑me aqui bem‑amada, Houston, we have a problem, minha namorada é homem, sou o oposto da puta porque estou pouco me fodendo, não estou podendo tanto assim, ai de mim que não sei se acendo uma vela ou se xingo a escuridão, ando tão sem tempo de tanto assistir televisão. Eis‑me aqui falada, mal‑bem‑amada, o vestido mais bonito uso para ser despido, a vida é tão tranquila que devia emitir atestado de óbito, é óbvio que uma das coisas que me dão mais prazer é fazer o que não devo, vou comer e aproveitar até a última mastigada. Eis‑me aqui me despedindo de mim depois de vomitar a alma, felicidade é a minha direção não meu destino, me peça para ter calma, antes de rezar vou me perdoar, antes de desistir vou tentar, antes de falar vou escutar. Eis‑me aqui renascendo, sendo mais eu do que jamais fui, de que me adianta falar bem se estou errada no que digo, não me ofereça sua sabedoria, me dê apenas um copo d’água, uma fatia de pão e um pouco de circo. Só não posso viver com quem não consegue conviver comigo, nessas eu tive foi sorte. E se você não salvou minha vida, pelo menos não arruíne minha morte.







Eu tentando trabalhar em uma boa foto para o blog com o livro "Rita Lee - Uma autobiografia", enquanto meu namorado tumultua a minha serenidade.

domingo, 20 de agosto de 2017

Por favor, não comente




Está aqui um aviso que ainda não li em lugar algum: “Por favor, não comente”. Atenção publicitários e designers, pode pegar a ideia e chamar de suas. Com certeza daria em uma ótima placa.

Acontece que com tanto espaço disponível, o povo começou a achar que deve comentar tudo, em todos os lugares, na internet e fora dela.

Uma amiga, fã de Coca-Cola Zero, chegou ao supermercado, pegou as suas latinhas para os almoços da semana e, antes mesmo que pudesse sacar o seu cartão-alimentação – benefício suado pela empresa em que trabalha – a atendente do caixa solta um: “Essa Coca-Cola tem muito sódio”.

Oi?!

Em que momento ela foi liberada da pergunta mal-humorada que todo caixa que se preze deve fazer: “Vai querer Nota Fiscal Paulista?”.

Minha amiga respondeu o mais gentilmente/não te perguntei o que acha do refrigerante que eu compro.

Por favor, colega caixa de supermercado, passe as compras, não comente sobre elas.

Desta vez foi comigo. Estou na fila do caixa em um outro lugar, uma loja de conveniência, e ao lado das pessoas enfileiras aguardando para pagar por suas compras, uma jovem promotora convida as pessoas para conhecer a marca de cigarros que voltou para o mercado brasileiro.

Enquanto ela cumprimenta gentilmente quem passa por ali e pergunta se a pessoa fuma, tem um idoso à toa pendurado no cangote dela dizendo que para a brinco da coitada, que cigarro mata.

“Quem é que atende o cento e seis?! Eu ligo lá e ninguém atende. Isso aí que você está vendendo mata as pessoas. Minha mulher está com câncer, de cama, por causa disso aí”, falava o mala sempre parar. A menina, neste emprego digno mas que não é qualquer um que topa, respondia sorrindo amenidades como “Este telefone não é nosso, senhor. Se quiser posso te passar o nosso SAC... Pois é, senhor... Nossa, que pensa, senhor”. E eu torcendo para um caça talentos encontrar aquela garota e promovê-la enquanto eu também estava torcendo para o velho ter um derrame ali mesmo e parasse de falar.

Cara chato. Gente chata. Por favor, não comentem. Se a senhora esposa dele fumou e teve câncer por isso, o que a menina tem a ver? Alguém obrigou a velha a se matar de fumar? Vai lavar uma louça em vez de tumultuar a vida dos outros. Varrer uma calçada. Passar uma roupa. Mas não enche com seus comentários.

Todo mundo acha que tem que ter opinião sobre tudo. E registrá-la. Basta entrar em uma página com perfil para pets no Facebook. Ao postar a imagem fofa com um filhotinho de cachorro, imediatamente – e ao logo de semanas –, acumulam-se comentários que dizem: “Lindo”.

E aí vão: "Lindo!". Que lindo!!". LINDO!!!".

Exatamente dois dias depois do episódio com o velho que abomina cigarros – dois dias porque em um deles eu saí do trabalho e só dormi, sem passar em lugar algum – uma mulher de meia-idade está parada ao lado da atendente do caixa do mercadinho aqui perto de casa perguntando onde está “a receita” no jornalzinho deles.

“Cadê a receita, não tem mais?”, pergunta a louca com o jornal na mão. “Qual receita?”, reage a atendente com feição fúnebre. “A receita culinária que costumava ter nos jornaizinhos de mercado de antigamente... Não tem mais?”.

Gente... Eu nunca vi esse tipo de coisa em folheto de promoção de supermercado. Mas. Considerando que isso já existiu, se a fofa olhou o jornal inteiro e não achou, quer dizer o que? Que não tem receita culinária em nenhuma página. Mas a pessoa preeciiiiisaaa comentar.

sábado, 5 de agosto de 2017

Cheguei aos 10 anos de blog




Teve uma época em que eu desanimei de escrever porque todo mundo já escreveu sobre tudo. Eu pensava “Quem vai ler sobre isso de novo?”. Bobagem. Sempre tem alguém para ouvir o que temos para dizer. Quantas e quantas vezes os clássicos contos de fadas ganharam novas versões? Tudo pode ganhar um novo olhar. 

A reflexão acontece porque este ano completei dez anos escrevendo para o blog. Parabéns para mim. Parabéns para você.

Teve uma época em que eu achava que precisava de um novo teclado para escrever com mais conforto. Outra em que pensava que tinha que rascunhar o texto primeiro para então passar dias incrementando e só depois publicá-lo. Mas computador nem método faz o escritor. O que o faz é definitivamente escrever.

Meu primeiro texto publicado foi para o então blog Virando Jornalista ao qual eu tenho um carinho enorme até hoje. Criei a página durante uma aula de “Novas Tecnologias” – que de “tecnologias”, em 2007, o assunto eram os blogs – durante a faculdade de Jornalismo. Criei o nome de primeira. Soou uma delícia. Depois fui trabalhando no layout. Tudo by me. E até hoje é assim.

Tinha tudo a ver com o meu momento: compartilhar o que eu aprendia enquanto me tornava jornalista. Aqui está a minha primeira publicação: “Você escolheu assim?”. No texto curtinho, aos 20 anos de idade, eu abria sobre o que seria o blog. Daí a sequência foi falar sobre técnicas de Jornalismo, entrevistas com alguns professores e curiosidades sobre a formação. Nada de ficar comentando notícias como a maioria dos blogs da área fazia.

Com a repercussão da página, comecei a experimentar a levada das crônicas me abrindo para falar sobre comportamento e relacionamento. A repercussão sempre foi gostosa demais. Até que em fevereiro de 2015, sete anos depois de me formar e pensar demais sobre o que eu queria para o futuro do blog, mudei o nome da página para Do Fundo da Caneca com a publicação “De caneca para você”.

A ideia foi expandir o blog para novos leitores. E funcionou. Com buscas pela internet, muitos chegavam ao Virando Jornalista como profissionais e estudantes de Jornalismo enquanto eu escrevia sobre a vida em geral.

Me sinto presenteado demais por esses dez anos de experiências compartilhadas neste discreto ambiente em tempos de influenciadores que surgem aos montes com cada nova rede social e competem pelo número de seguidores, curtidas e visualizações.

Eu prefiro essa coisa mais chegada. Como uma caneca de café, um pedaço de bolo caseiro e um bate-papo sem rumo.

Sei que influencio quem passa fielmente por aqui e, principalmente, agradeço todos os dias pelo quanto eu sou influenciado com as histórias de cada um de vocês.

Definitivamente eu não sou o mesmo de uma década atrás mas é muito gostoso ler e entender em que mudamos porque há muito que se mantém exatamente igual.


Ainda não fiz terapia. Mas a minha cabeça não para. Por isso, escrevo. E não tem nada melhor do que falar e ouvir para a gente evoluir. Meu muito obrigado a você por ler mais este texto. Que agora comecem os próximos dez anos.


sábado, 22 de julho de 2017

Nós, tão humanos




Quando lembro da primeira vez que viajei de avião, a lembrança mais marcante que tenho é o momento logo depois da decolagem, quando conseguimos ver a cidade ficando embaixo da gente, ainda dando para ver os telhados, ruas, praças, então rodovias até que, para todo lugar que olhamos, só vemos céu. 

Eu tinha 25 anos. Me marcou porque me bateu muito forte a sensação do quanto somos pequenos, da falta de noção de mundo que temos. Por mais que se estude, viaje, pesquise, nada substitui a convivência com diferentes pessoas e, principalmente, o entendimento dos nossos sentimentos. 

Assistindo ao filme "Humano - Uma Viagem pela Vida" é possível sentir um pouquinho dessa convivência com pequenos depoimentos de pessoas de todo o mundo que mostram o quanto somos diferentes e parecidos, interessantes e bobos, inteligentes e tapados, capazes de amar e de vivermos na ignorância, e, principalmente, o que podemos mudar e não aqui na nossa casa, nesse mundo em que tudo o que acontece só depende de nós, humanos.

O filme tem quase duas horas e meia. Assisti na Netflix. São breves depoimentos dessas pessoas sobre medo, amor, família, pobreza, riqueza, sexualidade, felicidade e o encerramento maravilhosos com o que é o sentido da vida para cada uma delas.

É impressionante ver como rostos tão diferentes, marcados por suas culturas, possuem tanto em comum. Os temas que orientam os depoimentos mudam ao logo do filme e cada nova entrada de assunto começa com uma sequência de imagens sensacionais com paisagens e condições de pessoas que eu jamais iria imaginar serem reais enquanto vivo aqui no meu mundinho.

Dei risada e me emocionei com o filme. É um "mexidão" de emoções que só vendo. No final, o sentimento que fiquei foi o de paz.

Paz porque a solução para tudo, tudo, quando resumidos religião, filosofia e ciência é o amor e tudo aquilo que podemos fazer pelo outro. Paz porque não vamos mudar o mundo nesta nossa encarnação, mas, neste tempinho aqui, podemos torná-lo um pouquinho melhor pelo menos até a distância que conseguimos alcançar com nossos exemplos.

Como humanos, somos conscientes de nossas atitudes e escolhas, por isso, talvez, esse filme pode ser mais um empurrãozinho rumo às pessoas melhores que todos poderíamos ser.
    


quinta-feira, 6 de julho de 2017

Sobre a vida gourmetizada



Por Lucimara Souza


É fácil perceber que a vida se tornou gourmet. Aderir ao estilo gourmet tornou-se moda. Já existem vários textos e teorias sobre o assunto.

Comidas mudaram de nome, roupas mudaram de nome, pessoas, profissões e estabelecimentos comerciais mudaram de nome.

O famoso e bom torresmo com sal e limão virou cútis de suíno flambada com lascas de fruta cítrica, temperada com ervas e sal do Himalaia. O cachorro-quente tornou-se hotdog com salsicha assada no vinagrete de tomates orgânicos, com queijo coalho e cebola empanada. Ah, agora ele também é servido naqueles carrinhos de lanche, chamados recentemente de food truck.

É careta pedir suco de laranja. A moda está em ingerir pouco mais de 100 ml de suco de goji berry, chia ou chá de hibisco após a aula de crossfit. Quanta frescura!

O simples brigadeiro ganhou castanhas e disfarçou-se de brigadeiro gourmet trufado com chocolate belga e castanhas do pará caramelizadas. A macarronada transformou-se no fettuccine feito de trigo cultivado na Síria, acompanhado de lascas de picanha e pimentões salteados na manteiga alemã.

Tudo o que custava no máximo 20 reais para servir 2 pessoas, hoje custa 70 em prato individual. O povo – o pobre metido a rico principalmente – acha chique, pois até o empratamento é gourmet. Dá pra tirar selfie e postar nas redes sociais.

Ovo gourmet, gente? Pamonha? Não, não pode! Pra quê isso?

A calça boca de sino tornou-se flare. O colã é o atual body, normalmente uma peça de costas desnudas e uma super aparente transparência na altura dos seios. A blusa mostrando a barriga – nem sempre aquele tipo tanquinho sarado gourmet – virou top cropped. Aqueles casacões para frio de 10o se tornaram o Trench Coat, e o casaquinho de lã curto só é chamado de Cardigan agora. E as calças rasgadas? Atualmente são destroyed e, apesar de terem pouco tecido, seu custo é três vezes maior que o de uma calça jeans tradicional. Mas, de todos, o mais fofo é o nome das blusas de bolinhas: blusinhas de poá. Muito cute, não é?

Esses dias li a propaganda de uma loja que anunciava: inovação em roupas para o mundo gourmet. O quê? Reli. Era isso mesmo. Fiquei assustada.

Não menos que no dia em que fui tentar entender o porquê começaram a chamar o paquera, a paixão passageira de crush. Isso não dá sensação de real interesse. Engraçado é que o termo saiu do mundo do adolescente e das redes sociais e tomou grandes proporções na vida real.

A pessoa que dava palestra motivacional se autodenomina Coach nos tempos gourmet. Tem boa oratória e é especializada em Coaching, uma metodologia de desenvolvimento e capacitação humana que acelera resultados. É um treinador que leva a pessoa a criar vergonha na cara, tirar a bunda do sofá e acordar pra vida. Afinal, sucesso não cai igual chuva do céu.

Bem, falar em gourmetização da vida sem falar da gourmetização das casas também não dá. Já ouviu falar em home organizer? Há profissionais que organizam os lares quando os donos têm preguiça. Está na moda isso.

A decoração da casa também é gourmet. Muito amarelo, turquesa e vermelho, misturados ao vintage, o estilo mais romântico e delicado que traz peças retrô. A pessoa fala assim só pra não dizer que têm móveis da bisavó em casa.

Sinceramente, eu não tenho salário gourmet para bancar uma vida gourmet. Meu prato preferido continuará sendo arroz, feijão, bife e salada de alface. A calça jeans tradicional e a camiseta branca serão minhas queridas além da vida, e lojas de departamento meus eternos amores. Minha varanda não vai ser gourmet, não terei móvel amarelo ovo, tampouco geladeira “envelopada” de papel contact – afff!

Em alguma ocasião especial até aceitarei comer o tal fettuccine feito de trigo cultivado na Síria, acompanhado de lascas de picanha e pimentões salteados na manteiga alemã, no entanto, o churrasco com farofa, arroz branco e o vinagrete não-gourmet agradará muito mais meu paladar e ajudará a completar com simplicidade a felicidade dos meus dias.



~D|caneca~D|caneca~D|caneca~D|caneca~D|caneca~D|caneca

Lucimara Souza

Conheci a Lu muito antes de Facebook. Quando blogueiros seguiam blogueiros exclusivamente pelos desktops. Essa diva das palavras é delicada no sorriso, no jeito de falar, mas com voz e pensamento fortes, típicos de quem nasceu para inspirar.

Ela é formada em Letras, Pedagogia e especialista em Comunicação: linguagens midiáticas, atualmente professora. Aprecia a escrita permeada pela criatividade, humor e certa dose de sarcasmo.


~D|caneca~D|caneca~D|caneca~D|caneca~D|caneca~D|caneca

quarta-feira, 7 de junho de 2017

Dica: The Mask You Live In























É inacreditável, mas acontece. Aos fazer a foto de um grupo de homens, um deles chega na fotógrafa e pergunta: posso ver? Ela diz que sim e enquanto prepara o visor da câmera, ele solta: "Melhor ver, né? Porque vai que eu saio meio esquisito e os caras depois ficam me zoando".

O "meio esquisito" é com qualquer sinal de viadice, meio afeminado, uma mão meio mole, um olhar meio gay. Gente! Só rindo.

A situação me fez lembrar o documentário The Mask You Live In (algo como "A máscara em que você vive"). O filme é sobre o excesso de promoção da masculinidade na criação dos meninos. Os famosos "homem não chora, seja homem, larga de ser mulherzinha" e por aí vai na formação de pessoas um tanto problemáticas no futuro.

Comentei com uma amiga sobre o documentário – que está na Netflix – e ela imediatamente disse que dias desses, ao buscar o filho na escola, ele e outra criança dançavam enquanto suas mães chegavam para apanhá-los e foi aí que a mãe do amigo de seu pequeno fez o infeliz comentário: "Fulano, para de ficar dançando igual mulherzinha!". E olhou para a minha amiga esperando que ela também reprimisse seu menino. Gen-te.

A fofa da cabeça machista é esposa de policial. Freud explica. Não dá para generalizar, mas, o meio em que se vive – obviamente – influencia o comportamento, mais ainda crianças de até sete anos, quando está se formando a principal base de nossas personalidades.

The Mask You Live In reúne depoimentos de médicos, professores, psicólogos e, claro, crianças e adolescentes homens. Vale muito a pena assistir. As situações são um pouco extremas se comparadas à (falta de) cultura do Brasil porque o patriotismo dos Estados Unidos colabora demais para esse esteriótipo do machão mas, no geral, são os mesmos casos que no final resultam em violência.

Quem assistir ou já assistiu, me conta. Play no trailer.