quarta-feira, 18 de julho de 2018

Vídeo | Boteco das Ovelhas

Meu bate-papo sobre o trabalho aqui no Caneca, processo criativo, escrita e mais desse mundão digital enquanto rolaram petiscos e cerveja gelada no projeto da página Ovelhas Negras. Conheçam. PLAYit!




sexta-feira, 13 de julho de 2018

Pensei que amei


Sempre que falo sobre a gente, me refiro a ele como o meu maior amor, ele sendo a pessoa que eu mais amei. Me enganei. 

Ele me amou. Eu só achei que amei. Coitado de mim. Amar definitivamente não é para qualquer um e, sempre que ouvia isso, não entendia qual seria essa tal sorte que eu sempre achei ser receber o amor, ser amado, enquanto esse presente tão especial é justamente o contrário: é oferecer, não receber. 

Sorte a dele que, mesmo mais jovem, sabe amar. Sim, ele foi o mais próximo que cheguei de aprender um sentimento no qual eu talvez nunca me forme. Porque amar não requer disciplina ou condição.

Eu peguei DP, não colei grau, não tenho direito a comemorar o amor em uma festa de formatura. Ainda estou de recuperação. Mas estou fazendo a lição de casa de todos os dias. Porque amar não é desejar.

Eu desejei coisas sobre ele, para ele, por ele. Amar é não ter expectativa. Ainda mais quando somos verdadeiramente amados de volta. E nisso ele se mostrou mestre e doutro.  Eu fui amado como sou. Com qualidades e lotaaado de defeitos e um tanto de egoísmo. Desejar é egoísta. Amar é caridade, compreensão.

Me doei, sim, principalmente no começo. Graças a ele, recebi uma sementinha do que é o amor genuíno. Eu a cultivei, ele me ensinou a regá-la, mas nem tudo cabia a ele. Quando me deparei com o meu vasinho com uma linda muda do amor, eu errei a mão.

Errei porque amar é alimentar o outro, não se alimentar dele.  É cuidar. Entender. Abraçar tudo que o envolve. Amar é não cobrar, ainda mais quando se é amado de volta.

Eu até amei, mas depois descuidei. Me desnorteei por achar que amor é conquistar, crescer, mudar, ganhar e ganhar e ganhar. Quando na verdade amar é simplesmente compartilhar o que se tem, o que nós somos. Amar não é ganhar nem perder. Quem ama se sente vencedor sempre que houver empate.

Que sorte a minha conhecer o amor tão de perto. Prefiro um câncer a um dia esquecer o que aprendi com ele, ele que me ensinou o que é amar. Porque muito pior que uma doença é viver sem conhecer esse amor, ou pior ainda: é seguir achando que sabemos o que é amar de verdade.  

E ele o fez sem o menor esforço. Me amou. Nada esperou. Nunca pediu ou reivindicou. Somente uma vez me julgou. Uma. Em quatro anos. Coisa boba. Em cada outra vez, de todas elas, ele humildemente se doou, me apoiou. Dia e noite, ele só me presenteou. E sorria por isso.

"Você que sabe", "Qual você prefere", "Do que você está com vontade" são práticas do amor por alguém que el praticou por mim, para mim. E eu não entendi. Julguei, critiquei, mais uma vez, o cobrei. Eu pedi que ele não pensasse em mim, que decidisse por ele. Essa é a confirmação de quem definitivamente não entende nada sobre o que é amar alguém.  

Amar é só presentear e ser feliz por isso. Amar é curtir ele ser a pessoa "errada". Eu não consegui. Ele foi completo, ele foi mais, ele amou. Eu fui apenas eu.

Graças a ele, tempos depois, hoje eu sei como seria amar. E mesmo que eu não tenha a chance de um dia oferecer este amor, eu sou diariamente grato por ter tido um maravilhoso professor.


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quarta-feira, 11 de julho de 2018

Quem diria, hein, Martha?


Em 2008 ouvi e li Martha Medeiros pela primeira vez. Fomos apresentados – somente ela a mim, claro – pela internet quando rolaram as notícias sobre a adaptação de seu livro “Divã” aos cinemas – lançado em 2009. Depois de experimentar alguns de seus textos, esbarrei na coletânea de crônicas “Doidas e Santas” (2008). Folheei. Comprei. Devorei.

De lá para cá, minha relação com a autora é essa: a cada lançamento, um novo momento entre a gente. Nunca estive em terapia – não que eu não precise, tá? – mas essa lindaça funciona como tal para mim. Me faz pensar. Me faz bem demais. 

A cada crônica, Martha nos oferece aprendizado, leveza e intensidade sobre seus gostos e irritações, sua vida e seu olhar sobre o alheio.

Acabo de ler sua mais recente coletânea, “Quem diria que viver ia dar nisso”, com textos de 2016 e 2017, originalmente publicados em suas colunas nos jornais Zero Hora e O Globo. O mais gostoso destes dez anos de leitura é ver o quanto seus assuntos mudam, amadurecem, enquanto ela não perde sua abertura para novas experiências, porém, sempre fiel à sua essência.

Desde “Simples Assim” (2015), é possível ver a autora escrevendo sobre coisas “menos gostosas”, como política, religião e noticiário. Ela assume sua falta de graça pela coisa, mas não se nega a falar do que é relevante quando o assunto é o comportamento dessa raça que por vezes acerta e – muitas outras vezes – erra.

Eu gosto da Martha que fala sobre amor, sobre relacionamento, sobre convenções e esquisitices inventadas pelas pessoas, com seu olhar aberto, sereno e experiente por conviver demais, se expor de menos e viajar em si e por aí. Amo a coletânea dos anos 90, “Non Stop”, publicada em 2000, com o meu texto favorito dela: “Amor e perseguição”.

Há muito dessa Martha mais “experimental” por lá. Depois fico com “Coisas da Vida” (2005), “Feliz por Nada” (2011) e “A Graça da Coisa” (2013).

Dos seus romances, “Fora de Mim” é um inacreditável passeio em diferentes tipos de relacionamentos e o que viver cada um deles desperta em uma mesma pessoa.

Essa publicitária que se libertou para a escrita está sempre no Caneca, veja outros posts aqui.

Desta última leitura, separei as minhas duas crônicas favoritas para compartilhar com vocês. Martha Medeiros me inspira, me melhora.



A pessoa certa

Algumas frases se propagam sem que saibamos quem é o verdadeiro autor. É o caso de "Enquanto não surge o homem certo, vou me divertindo com os errados", que eu ouvi pela primeira vez num programa da Marilia Gabriela – ou será que li numa camiseta? Que a frase é espirituosa, nem se discute, mas é uma cilada: acreditar que existe a pessoa certa é a razão dos nossos problemas de relacionamento. Por que a gente insiste em acreditar em lendas?

Essa entidade abstrata – a pessoa certa – é aquela que vai entender todas as suas manias, vai adivinhar quando você quiser ficar em silêncio, terá o corpo e a rosto que você idealizou em seus delírios românticos e a sua mãe – a sua, não dela – vai aprovar sua escolha assim que abrir a porta da sala de visita. Bastará uma rastreada com o olhar e logo ela piscará pra você como quem diz: agora sim.

Agora sim o quê? Agora você pensa que encontrou alguém com quem não irá brigar jamais e que vai ser encaixar com perfeição na sua ambiciosa procura pela pessoa certa, esta que (atenção, spoiler) não existe.

A pessoa certa pra você é a errada. Lembra da pessoa errada?

Morava no cafundó do Judas. Ria alto. Não entendia muito os filmes de que você gostava, mas fazia comentários deliciosos a respeito. Era muito mais velha que você. Ou muito mais jovem que você. Não parava em emprego algum e sua coleção de ex era preocupante. Que saudade da pessoa errada.

Nunca acertou um único presente – mas lembrava de todas as datas. Depois de uma hora e meia ao telefone, queria falar um pouco mais e ficava triste se você sugeria que desligassem. Como amava você a pessoa errada.

Não conhecia nenhum de seus amigos. Nem você os dela. Fumava demais. Ou bebia demais. Ou ambos. Mas nunca teve passagem pela polícia. A fissura por previsões astrológicas era meio exagerada, e já estava na hora de aprender a arrumar a bagunça que era seu apartamento, mas nunca deixou de sair do banho perfumada. E molhando o chão do quarto, claro. Era a incorreção mais bem-vinda para aquele seu momento de entressafra, não era?

Até que surgiu a pessoa certa. Toda a família comemorou e os amigos respiraram aliviados: agora sim, você tinha alguém a sua altura, agora sim, você não precisaria mais passar por altos e baixos, agora sim, nunca mais um barraco, nenhuma surpresa. Agora sim, um casal padrão.

Quase posso ver você, daqui a uns meses, usando uma camiseta que diz: "Enquanto não surge a pessoa errada, vou me entediando com as certinhas".

4 de março de 2017



Tem homem no mercado

Aconteceu há algum tempo no Rio. Uma mulher colocou um anúncio classificado no jornal em busca de um homem que fosse disponível, hétero e que ganhasse ao menos dois mil reais por mês. Se era piada, funcionou, porque gerou boas gargalhadas. Esta "mulher solteira procura" não reivindicou honestidade, inteligência, bom humor ou conhecimento geral – resumiu-se ao básico do básico. Que o "produto" não tivesse compromisso com ninguém, que gostasse de mulher e pagasse suas próprias contas.

O que significa que o que sobra por aí é justamente o oposto. A comunidade gay só aumenta. Se o candidato for surpreendentemente hétero, é provável que tenha alguma namorada escondida na manga. E se for hétero, livre e desimpedido, maravilha – mas talvez não tenha grana nem para um pastel de vento, vai encarar?

Vai.

Porque o que mais se propaga por aí é a frase "Não tem homem no mercado", e a mulherada que, como se sabe, não faz outra coisa na vida a não ser se dedicar às pesquisas no súper, se apavora e acaba aceitando qualquer promoção. Homem duro? Serve. Homem casado? Serve. Homem que mora com a mãe aos 45 anos? Serve. Sendo homem, serve.

Até que o cenário piora: é bandido? Serve. Desrespeita você? Serve. Bate em você? Serve.

Aí a mulher morre nas mãos desse delinquente e ninguém entende.
Vamos dar um rewind? Começando por parar de divulgar essa ameaça boba de que não tem homem no mercado. Tem, sim. Tem um monte de homem solteiro, separado e viúvo que sonha em encontrar uma mulher madura, companheira e independente. É verdade que há mais mulheres no mundo do que homens, a vantagem é deles, mas apostar no desabastecimento das gôndolas é o caminho mais curto para fazer bobagem. Você acaba se contentando com o que sobrou no fundo da prateleira, já com o prazo de validade vencido.

Quando vemos um homem sem mulher, pensamos: é porque ele não quer uma.

Quando vemos uma mulher sem homem, pensamos: é porque nenhum deles a quis.

Se insistirmos nessa mentalidade medieval, continuaremos propensas a aceitar qualquer carne de pescoço que se passe por filé. Não há por aí quem diga que somos especialistas em detectar os desajustes de ofertas? Então, vamos tratar de pesquisar bem e levar coisa melhor pra casa.

18 de março de 2017



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terça-feira, 26 de junho de 2018

Appelamor





Eu quase fui e não voltei. Comecei a me perder e, graças à noção que me resta, não cheguei muito longe da porta que entrei: a dos Apps de relacionamento.

A Apporta que pode nos deixar Apperdidos. A experiência que tive... AppelamordeDeus.

Para os homens gays afim de pegação, sexo sem compromisso e troca de nudes, os dois principais aplicativos são Hornet e Grindr. Alguns toques em fotos e poucas perguntas – como, “de onde é?” e “o que curte (no sexo)?” – e o próximo passo é rumo à cama, ao sofá ou algum beco abandonado – porque, sim, tem de tudo. Appelação!

Esses dois Apps já não são a minha há tempos. Há seis meses solteiro, foi a vez de experimentar os outros dois vistos como mais “promissores” quando o assunto é conhecer pessoas: Tinder e Happn . Appara!

Baixei o Tinder. Configurei para o alcance de até 110 km de distância – imaginando que, se valesse o esforço, uma horinha de carro poderia resultar em uma boa conversar acompanhada de uma bela e gelada cerveja. Preferência, homens. Idade: dos 25 aos 40 – porque mais novo que isso está difícil de acompanhar e mais velho que isso está impossível de se animar.

Coloquei minhas três fotinhos, bonitinho. Idade, 31. Descrição: jornalista e o meu trabalho – sem paciência para me descrever para pessoas que não têm paciência para me ler. Tudo certo. Play no App!

Na tela, foto, idade e descrição de caras de todos os tipos. Desliza para a esquerda para dizer Não, para a esquerda, Sim. Fui desenfreado para a esquerda... Nope, nope, NOPE!

Dos poucos que receberam sinal verde, dois responderam as mensagens no chat que é liberado quando rola o match! – o restante eu prefiro acreditar que sofreram derrames em vez de ter lido o meu “Oi” e simplesmente seguido a vida sem me responder – mesmo tendo “me curtido” nos coraçõezinhos distribuídos. Appraquê?

Depois de dois encontros em bares e algumas pessoas no meu WhatApp, em duas semanas, zerei o aplicativo. De repente a minha foto aparece no centro da tela em que estariam os pretendentes e um círculo, como um radar, cresce em torno dela para localizar alguém que eu ainda não tenha passado pelo perfil. Ninguém. Mensagem: “Não há ninguém perto de você. Expandir suas configurações de busca para ver mais pessoas”. Apporfavor! Não, obrigado.


Nem que eu expandisse o alcance de pessoas até o Haiti, daria certo. Appelei e deletei.

Com o Happn, o mesmo. Só que durou menos. Até porque neste aplicativo você deve passar, fisicamente, a certa distância das pessoas para que elas apareçam para a sua avalição com xis, para negar o interesse, ou coração. Minha paciência durou quatro dias. Muda o App, continuam as pessoas. Papo padrão e a maioria nem aparece para retornar as mensagens, mesmo quando o “Oi” venha do lado de lá.

Appor que baixei? Queria conhecer gente. Gente interessante de preferência. Para amizade, sexo ou namoro, ter novas e boas experiências. Apperdadetempo.

Foi a época em que eu ia para baladas para transar bêbado depois das cinco da manhã. Escolhi por conversar mais com as pessoas, conhecer melhor, nos vermos e ver o que bate. Até fiz um e outro amigo colorido neste tempo. Amizade e sexo. Apperfeito!

Mas as coisas mudam. O interesse pode passar. A paixão pode surgir de um dos lados. E nada feito. Nem amizade nem sexo.

No momento, fico com meus barzinhos e amigos e cinema e minha casa. Escolho a Appaquera olho no olho. Descobri que eu Apprefiro.



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segunda-feira, 11 de junho de 2018

Paixão e opção




Apaixonar-se é uma questão de estar disposto ou algo que simplesmente acontece sem termos controle algum? Eu fico com a primeira teoria.

Sou louco pelo mundo fantástico de Walt Disney, mas, quando o assunto é o que eu deixo ou não acontecer com meus sentimentos, sou um tanto Wall Street.

Para mim só se apaixona quem está, no mínimo, aberto a isso. Das conversas de bar ao café no trabalho até as ferramentas digitais, lancei a pergunta.

No Instagram, usei da fofa possibilidade de enquete em um story. O resultado me impressionou demais: meio a meio. 50% disseram que se apaixonar está relacionado à predisposição e a outra metade acredita que é algo que não temos controle. Ao ver quem respondeu o que, deu de tudo. Casados, namorados e solteiros nos dois lados do muro.

Por quê?

Eu arrisco dizer que está diretamente relacionado às experiências que tivemos e, principalmente, ao momento de vida em que estamos.

Me explico.

Se nos relacionamentos anteriores nos apaixonamos acreditando que simplesmente aconteceu, vamos afirmar que assim será todas as vezes. Isso independentemente de estar em uma relação ou não neste momento. Para quem não está, esses solteiros garantem que apaixonar-se é algo sem controle. Mas o ponto é: algum deles é capaz de jurar que não gostaria de estar apaixonado? Ou seja, predisposição.

O tira-a-teima vem com quem está solteiro e, definitivamente, não está afim de se ver apaixonado. #NãoQuero #NãoPosso. Essa racionalização dificulta a abertura para que algo aconteça, mesmo ao conhecermos um perfil sensacional em educação, inteligência, humor, beleza, companheirismo, maturidade e quentura no sexo.

Um colega respondeu à pergunta com um excelente exemplo: “Se sou gay e tenho um conhecido hétero que me chama atenção, imediatamente sei que eu jamais poderia me apaixonar por ele pois sei que não vai dar em nada”.

Bang!

Se alguém está em um relacionamento e então se apaixona por outra pessoa: inocente ou culpado?

Para avaliação do júri: este ser não poderia fazer nada para evitar cair de joelhos por outro (portanto, inocente, sem controle) ou vive um relacionamento enquanto fica de olho em como seria a vida com outra pessoa, imaginando uma nova experiência (culpado, predisposto)?

A discussão renderia mais de mil textos. 

O que digo é que posso falar por mim que, aos poucos, saio do “Não quero” e “Não posso” me apaixonar para um controlável e previsível “Talvez eu queira” e “Quem sabe eu permita” desde que nada deixe de ser uma questão de opção: a minha, inclusive neste Dia dos Namorados. Feliz escolha para alguns. Feliz descontrole para outros. 


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terça-feira, 5 de junho de 2018

"Amor e perseguição"



Crônica publicada no livro-coletânea "Non Stop" (2000, Martha Medeiros).


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segunda-feira, 28 de maio de 2018

Dia dos Ex-Namorados



A cada novo Dia dos Namorados, ganhamos de presente um novo ano de distância dos nossos ex-namorados, ex-namoradas, ex-esposas e ex-maridos. Alguns os colocam no passado. Outros dão como mortos. In memorian. É quase assunto para ser lembrado em Dia de Finados.

Há quem comente a existência do ex com os amigos, mas coloca uma pedra em cima. Outros dizem ter consideração pela história passada, mas se encontrar o Fulano ou a Beltrana na rua, atravessam para o lado contrário sem olhar na cara.

Eu gostaria que de tempos em tempos também fosse Dia dos Ex-Namorados. Assim como a experiência atual deve ser bem cuidada, a anterior deve ser reconhecida. Uma coisa leva à outra. Só o seu passado te dá um pouco de aprendizado para o atual presente a dois ou a um – ou a vários, né?

O que acontece é que enquanto vemos o relacionamento anterior como uma história com começo, meio e fim, nos colocamos como se tivéssemos vivido em um livro que nada tem a ver com quem somos hoje. Jogado no sótão. No quartinho da bagunça para nunca ser revisto. Quando não, doado ou até queimado junto às fotos do ex-casal.

Em vez de uma publicação completamente separada, eu proponho o conhecido Capítulo de uma história que há muito o que se escrever e a se ler ainda: as nossas vidas. Um livro com o mesmo personagem principal, independentemente da troca de personagens coadjuvantes: você, o protagonista.

Para este Dia dos Namorados, eu quero de presente um ex-namorado - pausa para o choque e para quem precisa voltar e ler de novo.

Sim, eu troco jantar, presente caro, cineminha, viagem e motel por uma saudável e madura troca de mensagens que não vá além de um “Oi. Tudo bem? Como estão as coisas? Nosso sentimento mudou, eu tenho outra pessoa, estou sendo feliz com tudo o que tenho recebido da vida e quero que saiba que desejo o mesmo para você, que hoje vejo com carinho tudo o que vivemos naquela fase”. Pronto. 

“Ah, Matheus Farizatto, você diz isso porque não está namorando!”. Não estou namorando e, enquanto estive, teria dado, sim, um “Oi” para um ex ou uma ex – sim, longa história, já namorei homem e mulher, mas continuo não gostando de gatos. Aliás, com uma delas tenho isso de um jeito muito legal, nessa dose, “Feliz Aniversário!” e “Como estão as coisas, Ma? E seus pais?”. Sorte a minha.

Alguns especialistas em serem especialistas somente no que acham que são especialistas vão dizer que isso é amor mal resolvido, paixão enrustida. Não é.

Eu não falo de amizade com ex, de tomar cerveja junto toda semana e frequentar a casa um do outro no Natal. O meu ponto é simplesmente não ter que fingir que nunca aconteceu algo, reconhecer que é parte de quem somos hoje, que estamos na mesma cidade. Não ter que evitar uma troca de mensagem depois de meses, depois de anos daquele capítulo concluído juntos. Não ter que usar bloqueios em todas as redes sociais e aplicativos para garantir que o outro não exista. Eu definitivamente acho isso muito, muito triste. São pessoas com quem dividimos nossas vidas durante um período, envolvemos nossas famílias, dormimos juntos.

Há quem não tenha afinidade nem para um “Olá” ao ex. Tudo bem, eu entendo. Há também quem traumatizou de um tanto que faz mandinga todos os dias para que o fofo ou a fofa seja atropelado. Vamos respeitar o ranço de cada um. Mas, ainda assim, eu gostaria que, com o tempo, até isso passasse e ficasse a consideração pelo algo bom.

Para mim, o mal resolvido é justamente evitar, não falar, atravessar a rua, ignorar, não lembrar nem comentar quando surge um novo alguém. Soa insano. É fora do racional.

Será isso? Não conseguir ser racional? Pois olha, se você ainda não consegue racionalizar a sua emoção quando se trata de um antigo amor, é melhor você rever a sua companhia para esse Dia dos Namorados. Você pode descobrir que, mais do que eu, você precisa de um belo Dia de Ex-Namorado, com direito a presente, depois jantar e... Você sabe o que mais.


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segunda-feira, 7 de maio de 2018

Beijo amanhecido




Uma das coisas mais íntimas entre duas pessoas é o delicioso beijo na nuca. Na chegada a um motel, para dar o clima enquanto ajeita-se a chave do carro e a carteira sobre a mesa. Ao saírem de casa para uma noite na companhia de amigos. Aquele beijo surpresa em um lugar completamente fora de clima, como em um supermercado, enquanto um empurra o carrinho e o outro chega sem avisar, se aproximando da nuca, e...

Ao se aconchegar para dormir abraçado, de conchinha, então o beijo na nuca é quase um pedido de permissão para o abraço junto a um desejo de “Durma bem”. Até a hora de lavar a louça muda de cara com um beijo na nuca, com ou sem um belo abraço por trás, que se torne ou não o começo de uma transa sem hora marcada. É especial.

Beijo na nuca é intimidade não importa há quanto tempo se conhece a pessoa. Dá-lo e recebê-lo pede carinho, uma atenção, uma vontade além do convencional. Não falo de mordidas e lambidas, mas daquele beijo em que se coloca os dois lábios, nada seco, nem melado. O beijo na nuca é sempre quente.

Assim como as mãos dadas no cinema, o beijo na nuca é obrigatório em momentos quando não fazemos nada por obrigação.

Outro beijo que desafia as convenções, oficializações, rótulos, fachadas e as rasas pegações de uma só noite é o beijo amanhecido. Aquele que muitos farão cara feia ao imaginarem, mas falo daquele beijo dado logo após uma noite de sono juntos, sem neurose, sem pensar em hálito, permissões ou estética. Nada de formalidades. Língua na língua. Muito lábio. Beijo dado por desejo, não tarefa.

Acordar e sentir o outro ao seu lado. Se ajeitar e voltar a dormir. Abraçar e depois se virar para a parede. Ir ao banheiro, voltar, cochilar mais um pouco. Então é o outro quem vai ao banheiro para logo voltar a se deitar. De repente, os dois se abraçam. Beijos no pescoço e na bochecha e na boca.

Beijo amanhecido é surpresa esperada porque é preciso o ápice da vontade de beijar o outro. Só rola e é gostoso porque os dois querem. Porque querem muito. Porque a pele, o corpo sobre o outro, o cheiro natural de vocês juntos não te deixa pensar. É o tesão falando mais alto. A vontade de duas pessoas que são íntimas o suficiente para curtir o beijo do sexo pela manhã, quando estamos mais sensíveis.

Beijo amanhecido não cabe em casamento que pede divisão de contas e rituais como escovar sempre os dentes assim que se acorda. É beijo que também não rola com a pessoa que se conhece na balada seguida pelo sexo da ressaca. Não é beijo de um dia só nem de todo dia. É beijo raro de rolar, impecável ao se gostar.

Quem curte beijo amanhecido sabe se deixar levar sem pensar onde os dois vão parar. Nem pensam em que momento a vida vai azedar. Porque uma hora ela cheira mal e não há bala de menta que nos tire o gosto ruim da boca quando acontece. Até passar. Mas nem tudo acontece duas vezes.

Enquanto isso, eu quero receber um beijo amanhecido. Mais até que o beijo na nuca que fica até meio bobo perto da intensidade do outro.

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sexta-feira, 13 de abril de 2018

Bem aqui



Se fim de relacionamento é difícil para os dois, a coisa aperta um pouco mais para quem fica onde já foi – mais que a casa – o plano para uma vida inteira a dois.

Mais que em qualquer religião, eu acredito na Lei do Retorno e no quanto ela vem no momento exato para que a gente aprenda o que é preciso. Em meu R1 – vamos chamar assim o meu primeiro relacionamento com um cara, não que o nome dele comece com R, de jeito nenhum – moramos juntos em seu apartamento. Eu saí. Ele ficou. Só imagino o que rolou por lá depois disso. Ainda mais agora que vivo essa experiência com o fim do meu R2 – vamos chamar assim o meu segundo relacionamento com um cara, não que o nome dele comece com R, nada a ver.

Há alguns meses solteiro, o término desta vez veio depois de quatro anos de namoro com algumas idas e vindas e então quase doze meses morando juntos e – eu mal consigo escrever esse título – noivos.

Definindo noivos – Sim, pacote completo. Aliança dourada no dedo depois de um pedido de casamento durante uma viagem com direito a ajoelhar-se durante o jantar e a dizer o meu nome completo seguido pela pergunta “Você quer casar comigo?”, que eu respondi com um sincero “Claro que sim!”.

O casamento seria no primeiro semestre do próximo ano. Não vai acontecer. Ele se foi. Eu fiquei. Lei do Retorno, lembra? R1 seguiu sozinho naquele apartamento anos atrás. Então chegou a minha vez no apartamento atual.

Durmo sem ele. Acordo sem ele. Chego em casa e cadê ele? Gavetas e armário vazios durante semanas. Buracos na decoração da sala montada a gosto dos dois, agora capenga com a parte de apenas um.

Aos poucos, percebemos o que se foi e o que ficou. No sentimento e nas caixas. A necessidade da divisão de bens e o carinho em deixar coisas que ele fez questão de me presentear. Tristeza e afeto nos mesmos cômodos que abraçaram o companheirismo formado somente pelo amor. Cômodos com chão que agora pisam somente dois pés.

A uma cama de dois, o lugar mais aconchegante do relacionamento ao final do dia – fosse em tempos de risadas ou de implicâncias – passava a ser desconfortável. Por maior que fosse o meu cansaço, não apagava facilmente, não acordava plenamente.

Como em todas as horas da vida, nada melhor que o cuidado de quem realmente nos conhece. Não falo daqueles que aconselham o padrão, que soltam frases prontas ou que só falam de como foi quando aconteceu com eles mesmos, mas dos que pegam para fuçar naquilo que você não tem coragem nem de comentar. 

Minha mãe e minha irmã distribuíram as minhas roupas para ocupar todo o armário e repaginaram os objetos sobre o móvel da sala. Meus amigos ocuparam minha cabeça com cervejas e risadas. E boa comida. Muita. Todos acalmaram o meu coração, dando exemplos de como, cedo ou tarde, o descompasso daquele relacionamento viria.

A cantora Ariana Grande – antes de se vender ao pop das pistas – gravou a deliciosa “Right There” no início de sua carreira. Na música ela diz que “Você deveria saber que eu nunca vou mudar. Eu sempre vou ficar. Você me chama, eu vou estar estou bem ali... E se se você nunca mudar, eu vou estar bem ali”. A minha favorita da menina magrela de rabo de cavalo e vozeirão virou a minha nova mentira reconhecida. Quem nunca vai mudar?

Para mim, os dois grandes lances de todo relacionamento duradouro são: sempre ter novos planos juntos e saberem mudar em sintonia.

Mudaremos sempre. Quem não muda, desinteressa. Pelo menos a mim. E quando somente um muda, pode ser que o outro não se encaixe. Nem precisa. Tudo deve ser natural, sincero, parte da essência de cada um. Mas se não rolar, o descompasso virá.

Se os dois mudarem, a afinidade pode ser extrema ou o próprio desastre instalado. Depende da mudança e, principalmente, do ritmo dos passos dos dois.

Da melodia de Ariana Grande para a acidez de Arnaldo Jabor, o escritor diz que “Os casamentos convencionais só se sustentam por causa da religião ou da infidelidade”. E eu só concordo. Tenho duas formações, em R1 e R2, além de dezenas de confissões de amigos e amigas casados. Triste para os românticos. Um conforto para os sinceros consigo mesmos.

Poderia ter passado a vida toda com o R1. Ou ainda estar a caminho do cartório com o R2. Bastava relevar. Entristecer enquanto dobraria a quantidade de fotos no estilo Felizes para Sempre em todas as redes sociais. Ou procurar me preencher com o compromisso assumido com Deus. Ou o descompromisso de ficar com outras pessoas enquanto continuaria dizendo ser fiel àquela mesma.

No lugar disso, estou bem aqui. Com os espaços a dois ocupados com a nova vida deste um. A cama ganhou nova roupa e mais travesseiros para voltar a ser aconchegante. Agora de uma nova forma.
  

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